Dr. Adriano Leonardi

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tendinite de aquiles

A utilização do plasma rico em plaquetas no tratamento de tendinites de atletas.

Cerca de 40% de todas as lesões relacionadas ao esporte envolvem os tendões de nosso corpo. Quando existe reação inflamatória, chamamos de tendinite e, quando já existe um certo grau de degeneração, denominamos tendinose. As tendinites do tendão de Aquiles, por exemplo, ocorrem 10 vezes mais freqüentemente nos corredores do que em não corredores da mesma idade. Pessoas sedentárias também estão em risco de desenvolver a lesao. Até um terço dos casos de tendinite de Aquiles têm sido relatados em pacientes que não realizam atividade física nenhuma.

 

Para que servem os tendões?

Os tendões são os anexos de suporte de carga dos músculos e, ligados aos ossos, permitem uma contração muscular para o movimento mecânico do esqueleto, acelerando ou desacelerando um movimento. São as mais fortes estruturas de tecidos moles do corpo humano, capazes de suportar até 12 vezes o peso do corpo. Ao contrário dos músculos, os tendões possuem pouca capacidade de dissipação de energia cinética por alongamento e, quando o fazem, produzem calor, podendo desencadear a reação inflamatória.

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Por que inflamam?

lesoes-meniscais

Para sustentar a contração necessária para resistir a estas forças de alta elasticidade muscular durante longos períodos, as fibras do tendão têm relativamente baixa perfusão sanguínea e, consequentemente, potencial pobre de cicatrização.

Durante a carga cíclica gerada pelo esporte, o tendão inflama e, assim como outros tecidos que recebem pouco sangue (menisco, cartilagem, disco intervertebral, etc), existe uma dificuldade de cicatrização e uma tendencia de cronificação que tambem esta ligado a idade, sexo, altura, peso, comorbidades médicas, esforço repetitivo , mudanças nos padrões de treinamento , etc. De uma maneira geral, se a cura não acontece, o tendão sofre alterações estruturais com depósito de cálcio e outras substâncias não colagenosas dentro do tendão.

 

E o tratamento?

Tradicionalmente, a cura da tendinite vem através da fisioterapia seguida de fortalecimento, reequilíbrio muscular e melhor preparo físico ao esporte. Além de se reduzir a inflamação e degradação do colágeno tendíneo, a reabilitação tem como objetivo melhorar a capacidade de dissipação de energia cinética, deixando de sobracarregar tendões e articulações.

Em geral, o tratamento é bem sucedido e depende nao só de um diagnóstico acurado, mas também da qualidade do fisioterapeuta e dos recursos empregados (ex. Laser, ultrassom, plataforma vibratoria, corrente russa, etc).

 

E quando a reabilitação não resolve?

Havendo falha do tratamento tradicional, outras intervenções invasivas e não invasivas podem ser utilizadas. O intuito é sempre melhorar a dor e a inflamação do tendão para que o atleta possa progredir no processo de ganho de força e equilíbrio muscular.

Historicamente, a infiltração do tendão inflamado com cortisona foi a primeira terapia invasiva utilizada e se consagrou por muitos anos. Porém, nos últimos 10 anos, estudos mostraram que apesar do procedimento aliviar a dor e permitir um retorno ao esporte, também está ligado à degeneração e ruptura precoces do tendão, sendo praticamente abolido para pacientes jovens principalmente se utilizado no tendão de aquiles e patelar.

 

Plasma rico em plaquetas (PRP)

A infiltração de tendões por PRP foi introduzida na última década como uma alternativa para tratar tendinopatias crônicas com promessa de risco mínimo. Na Europa e EUA, seu uso tem aumentado recentemente, dada a sua segurança e disponibilidade para a preparação ambulatorial. Nestes países, ensaios clínicos randomizados, série de casos potenciais e estudos de caso-controle detalhados a seguir têm mostrado resultados clínicos de sucesso no tratamento de diferentes tipos de tendinopatias dos membros inferiores. Alguns destes estudos publicados recentemente, mostraram melhoria da morfologia do tendão, vascularização e produção de colágeno por exames de imagem.

plasma rico em plaquetas

Imagem retratando concentrado de plaquetas apos a centrifugação

 

O PRP é preparado pela retirada de sangue do atleta, seguido da centrifugação e extração do concentrado de plaquetas. As plaquetas são conhecidas por transportar grânulos alfa e grânulos densos, que contêm vários fatores de crescimento tecidual e transmissores celulares denominados citocinas que promovem a cura de lesões .

 

 

 

Exemplo de caso

USG tendo e PRP

Corredora de 48 anos com Tendinite cronica de Aquiles com lesao parcial indicacada no circulo A da imagem do ultrassom. Os pesqusadores alemaes utilizaram uma injeção de PRP seguido por um protocolo de reabilitação. A atleta apresentou melhora significativa dos sintomas e mostrou ressonância magnética com significativa melhoria de tecido de cicatrização quatro meses após o procedimento. Os autores o estudo que o PRP deve ser considerado para lesoes tendão de aquiles parciais.

 

Um estudo sobre o efeito antibacteriano de gel rico em plaquetas mostrou inibição do crescimento de bactérias como Staphylococcus aureus e Escherichia coli. Esta propriedade antibacteriana, teoricamente, pode reduzir qualquer risco de infecção associada com a injeção do PRP.

Autores que defendem seu uso também citam o baixo risco do atleta sofrer uma reação alérgica exatamente por ser um derivado do sangue da própria pessoa.

 

Limitações de seu uso

Por ser uma terapia realtivamente nova, existe ainda um longo caminho pela frente antes de ser considerado o tratamento de escolha para tendinopatias crônicas. Isso ocorre porque a maioria dos estudos publicados e relatos de séries de casos ou estudos de caso-controle, frequentemente com amostras de pequenas dimensões, o que limita a generalização dos resultados. Motivos estes do tratamento ainda ser considerado experimental no Brasil e em outros países.

 

Enfim

Atletas portadores de tendinopatias dos membros inferiores refratários ao tratamento tradicional têm o PRP como opção viável. A esmagadora maioria dos estudos na literatura relatem resultados favoráveis após o tratamento com injeções de PRP, enquanto que apenas alguns artigos têm relatado efeitos adversos ou nenhum benefício adicional significativo do tratamento.

Certamente, os benefícios do PRP superam os riscos potenciais. No entanto, há uma necessidade de mais estudos para confirmar as descobertas. No momento, a literatura mundial suporta o potencial de aplicação de injeção PRP para o tratamento de tendinites e fasceítes plantares e, nos próximos anos, assim como outras terapias celulares, seu uso deverá ser regulamentado e consagrado.

 

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dr-adriano-leonardi-especialista-do-joelhoDR. ADRIANO LEONARDI

Médico ortopedista especialista em traumatologia do esporte e cirurgia do joelho. Médico e fisiologista do esporte. Presidente da Sociedade Brasileira de Medicina de Ambientes Remotos e Esportes de Aventura. + Conheça o Profissional

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