Dr. Adriano Leonardi

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Instabilidade do Ombro

A instabilidade do ombro é um problema comum, e cuja incidência vem aumentando nos últimos tempos, em função do maior número de praticantes de atividades físicas. Para entendermos o conceito, é preciso que saibamos alguns detalhes simples.

O ombro é a articulação (junta) que tem mais liberdade de movimento do nosso corpo – isso porque o ombro, junto com o cotovelo, tem a função de pôr a mão em qualquer lugar do espaço.

Toda articulação tem de ter duas capacidades simultâneas – tem de poder funcionar normalmente e de manter-se estável, ou seja, ao mesmo tempo em que dois ossos deslizam entre si, o contato entre eles deve se manter, durante todo o movimento.

Um exemplo onde isso acontece, no nosso dia-a-dia, é em uma dobradiça de um porta – enquanto abrimos uma porta, a dobradiça desliza sobre si mesma, e ao mesmo tempo fica em contato com suas partes. Ou seja, funciona como uma articulação.

Existem articulações em nosso corpo que são extremamente “estáveis”, como o quadril e o joelho. Assim, embora lesões no quadril, e sobretudo no joelho, sejam comuns, provavelmente você nunca viu (ou ouviu) alguém dizer que já “tirou o quadril do lugar”. Não que isso não possa acontecer, mas o deslocamento desta junta, por exemplo, só ocorre em traumas de grande energia, pois a estabilidade da mesma é enorme. Todavia, com o ombro a coisa não é bem assim.

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ANATOMIA E INSTABILIDADE

O ombro é uma junta propensa a deslocar-se ( sair do lugar ), e o primeiro motivo é a própria arquitetura óssea da articulação. O ombro, do ponto de vista ósseo, funciona como uma bola de golfe no seu apoio – existe uma base muito pequena, que sustenta uma estrutura muito grande.

Sendo assim, existem várias outras estruturas que ajudam o ombro a “manter-se no lugar”, durante todos os movimentos que possa fazer. Entre elas, estão alguns tendões e músculos, mas os elementos mais importantes são, sem dúvida, a cápsula articular (bolsa que envolve a articulação) e seus ligamentos. Estes elementos tem como função agregar estabilidade ao ombro em todos as posições.

TIPOS DE INSTABILIDADE

Existem alguns tipos de instabilidades do ombro, o que quer dizer que ele pode “sair do lugar” de formas diferentes. Na verdade, o que caracteriza, sobretudo, os diferentes tipos de instabilidade do ombro é a direção, ou seja, o sentido do deslocamento, quando este de fato ocorre.

Assim, o ombro pode deslocar-se pra trás (o que é raro), pra baixo (o que é muito mais raro ainda) e pra frente. O deslocamento “para frente”, que é chamado de anterior, é o mais comum, é o tema que abordaremos aqui.

INSTABILIDADE ANTERIOR

A instabilidade anterior do ombro é a situação em que o ombro se desloca (ou seja, “sai do lugar”) para frente. Isso quer dizer que , quando ocorre o deslocamento (na verdade, o termo é luxação), o osso do braço, chamado de úmero, se desloca pra frente do corpo.

Sem dúvida, a luxação anterior do ombro é amais freqüente de todas, o que faz com  que 92 a 98% dosa casos de deslocamento sejam de luxação anterior.

E COMO ISSO ACONTECE?

A luxação anterior ocorre geralmente associada a um trauma, que costuma ser de alta energia. Classicamente, ocorre quando o ombro está abduzido ( elevado pela lateral do corpo ) e rodado externamente (ou seja, para trás).

Estes episódios costumam ser muito dolorosos e, quando ocorrem, devem ser abordados pelo médico. O paciente deve ser levado ao médico (geralmente, um pronto-socorro) o mais rápido possível, e deve ser radiografado. É importante dizer que o ombro não deve ser colocado no lugar até que sejam feitas radiografias adequadas (pois pode haver fratura associada).

Depois de feitas as radiografias, o ombro deve ser “ reduzido”  (ou seja, “colocado no lugar”) por um médico – este procedimento não é simples, e pode trazer seqüelas, se feito de modo incorreto.

E O QUE ACONTECE QUANDO O OMBRO SE DESLOCA PRA FRENTE?

Quando o ombro sofre uma luxação anterior, quase sempre ocorre a lesão de um importante ligamento, chamado de gleno-umeral ântero-inferior. Quando o ombro se desloca, este ligamento se rompe, e este rompimento ( ou seja, a própria lesão do ligamento ) é chamada de lesão de Bankart.

Após a ocorrência de uma luxação anterior, o paciente deve ficar imobilizado, em uma tipóia simples, por até 2 semanas. Este período de imobilização tem como intenção deixar o paciente sem dor, e facilitar a resolução do processo inflamatório que se cria na articulação.

E O QUE ACONTECE COM O OMBRO DEPOIS? ESTA LESÃO PODE CICATRIZAR? 

Infelizmente, na maioria das vezes, a lesão de Bankart não cicatriza corretamente. Sabe-se que, quanto mais jovem o paciente, menor a chance de cicatrização adequada. Podemos dizer que, se o paciente tem 20 anos de idade, a chance de o ligamento não cicatrizar bem é de mais ou menos uns 90 a 96 %. Estes números caem um pouco até os trinta anos, quando então a chance de não-cicatrizacão fica em 80 a 85 %. Todavia, de um modo geral a lesão de Bankart raramente cicatriza bem. E isso significa que, na prática, estes pacientes, uma vez que tenham sofrido um episódio inicial de luxação anterior, tem altas chances de desenvolverem novos episódios, sendo que cada vez com mais facilidade. É comum que alguns pacientes tenham deslocamentos, ou sintam que o ombro “quis deslocar-se”, ao pegar um copo em cima do armário, ou meso ao dormir.

E COMO SE TRATA, ENTÃO, O PROBLEMA?

Idealmente, o paciente, após sofrer um episódio de luxação anterior, deve ser submetido à realização de um exame chamado Ressonância Magnética. Este exame mostra, com clareza, se houve uma lesão ligamentar, e revela a extensão ( tamanho) da mesma. A partir de então, deve-se avaliar a idade e as aspirações esportivas e recreativas de cada um. Na prática, o tratamento da lesão de BANKART é cirúrgico, para que possamos colocar o ligamento no lugar correto, e para que o mesmo, assim, possa cicatrizar adequadamente. Com isso, o paciente volta a ter um ombro em que confia, e pode voltar as suas atividades físicas com segurança.

SOBRE A CIRURGIA

O tratamento da instabilidade anterior sempre foi feito, até poucos anos atrás, de modo convencional, ou seja, através de cirurgia aberta. Esta cirurgia obtinha bons resultados, porém implicava em uma cicatriz grande, e era tecnicamente difícil de ser realizada. Todavia, a cirurgia do ombro tem evoluído muito nos últimos anos, com o advento da técnica artroscópica (por vídeo). Pode dizer, atualmente, que a artroscopia revolucionou (e vem revolucionando) a cirurgia do ombro, não somente no tratamento da instabilidade, como no tratamento de outros problemas da articulação. No dias de hoje, o tratamento gold-standard ( ou seja, padrão-ouro) da instabilidade é o tratamento artroscópico.

TÉCNICA

Pela técnica artroscopica, são feitos 3 ( ou 4 ) pequenas incisões na pele, de 3 a 4 mm de extensão. Através destas pequenas “aberturas”, são introduzidos uma câmera de vídeo e algumas pinças e dispositivos especiais, com os quais pode-se realizar a cirurgia de modo simples e seguro.

A cirurgia consiste na introdução de pequenos parafusos ( chamados âncoras), com as quais conseguimos colocar o ligamento no lugar certo. Esta cirurgia dura menos de 60 minutos, e permite uma volta mais precoce às atividades de trabalho, além de promover um pós-operatório praticamente isento de dor.

E SOBRE A RECUPERAÇÃO?

A recuperação costuma ser simples e tranqüila. O paciente deve usar uma tipóia, por 3 a 4 semanas, após as quais começa a fisioterapia. O retorno às atividades diárias de vida (dirigir, digitar, alimentar-se , etc.) já se dá entre a 3 e 4 semana de pós-operatório, e a volta as atividades físicas ocorre entre o quarto e o sexto mês.

 

Importante: O conteúdo deste artigo é meramente informativo e não substitui uma consulta médica.Diagnósticos de lesões e opções de tratamento variam de pessoa para pessoa e dependem de fatores como sexo, idade, ocupação, etc, e portanto não devem ser generalizados. Consulte sempre seu médico. As informações deste site não devem ser utilizadas para auto-diagnóstico ou auto-tratamento.

6 comentários

  1. Gilberto - 9 de abril de 2015 22:54

    Dr. gostaria de saber se atende convênios se também é especializado em ombros?

    Responder
    • Dr. Adriano Leonardi - 10 de abril de 2015 00:09

      Oi, Gilberto.
      Nao atendo planos de saude.
      Sou especialista em ortopedia esportiva e cirurgia do joelho.

      Responder
  2. Denis Ribeiro Maurício - 11 de setembro de 2015 14:16

    Boa tarde Doutor Adriano,
    No tratamento pós operatório, o paciente consegue ganho de 100% da rotação externa? Se ganha, em quanto tempo isso comum de acontecer?
    Obrigado

    Responder
    • Dr. Adriano Leonardi - 11 de setembro de 2015 20:59

      Depende da tecnica utilizada. Se for feito por Latarjet, dificilmente se consegue 100%.

      Responder
  3. José - 5 de outubro de 2016 15:30

    A cirurgia só é indicada quando há rompimento de ligamentos? No caso de uma lesão de Bankart sem comprometimento dos ligamentos, a cirurgia é recomendada?

    Responder
    • Dr. Adriano Leonardi - 5 de outubro de 2016 19:49

      Existindo a lesão de bankart, a cirurgia esta indicada.

      Responder

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