Dr. Adriano Leonardi

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Tratamento da osteonecrose da cabeça femoral através de células-tronco

A necrose avascular da cabeça femoral (também conhecida como osteonecrose) ocorre quando as células do osso da cebeça do femur morrem espontaneamente, levando à fratura, colapso da cabeça do fêmur e, posteriormente, desenvolvimento de osteoartrose do quadril.

Estatisticamente, no Brasil, isso ocorre em 10.000-20.000 adultos todos os anos, tipicamente entre as idades de 20 e 60 anos. Uma vez que o colapso da cabeça femoral ocorra, a dor grave segue, e o curso da doença raramente regride. Tradicionalmente, a principal estratégia terapêutica pela qual estes pacientes sofrem de alívio da dor é a artroplastia total do quadril (prótese total do quadril).

 

Por que ocorre a doença?

A origem da doença ainda não está clara.Acredita-se que esteja ligada a distúrbios de coagulação ou anormalidade genética que leve a comprometimento vascular. Outra hipótese de trabalho afirma que a morte celular deve-se ao aumento da pressão intramedular na cabeça femoral, levando a diminuição do fluxo sanguíneo e morte celular .

 

Diagnostico

 

A necrose avascular da cebeça do fêmur tende a afetar pacientes de 20 a 40 anos, sendo a idade média de 38 anos. Os sintomas podem variar amplamente, dependendo do estágio na apresentação. Nos estágios iniciais, os pacientes podem observar um início vagaroso de dor, com uma amplitude de movimento normal. Com a progressão da doença, este desconforto na virilha pode ser seguido por um início repentino de dor intensa. Um evento desta natureza geralmente sinaliza o colapso e a fratura da cabeça femoral, levando a mudanças degenerativas no estágio final. O desenvolvimento da doença em fase tardia é tipicamente marcado pelo aumento dos sintomas mecânicos, que incluem uma diminuição e muita dor ao se mobilizar o quadril. Neste estagio, muitas vezes, ocorre sobrecarga da coluna lombar, que é “obrigada”a aumentar seu arco de movimento para substituir a dor quadril, condição extremamente incapacitante denominada síndrome HIP-SPINE.

 

No estágio inicial, as radiografias sao normais e a ressonância magnética é necessária para complementar o estudo;

Ressonância magnetica mostrando area de necrose da cabeça femoral (setas vermelhas)

Se a doença é identificada durante os estágios iniciais, antes do colapso do osso subcondral (estágio 0-2), a articulação pode ser recuperada por uma variedade de técnicas de preservação do quadril. No entanto, se a doença evoluiu para o estágio 3 ou maior, a prótese é freqüentemente a única opção durável para alívio da dor e restauração da função.

 

Terapia de células-tronco

 

Como ja dito, a regressão espontânea da doença é rara. Acredita-se que isso se devaa um suprimento insuficiente de células regenerativas na cabeça femoral e fêmur proximal para remodelar a área de necrose.

Técnicas cirúrgicas que visam mudar o curso da doença como descompressão do núcleo, osteotomia, tratamentos medicamentosos, etc tem resultados não muito animadores, com até 40% dos pacientes progredindo para a prótese.

Levando-se em conta que as células progenitoras possam estar faltando na área lesionada, novas modalidades de tratamento foram desenvolvidas para introduzir células-tronco nas áreas de necrose na tentativa de prevenir a fratura e o colapso restaurando a arquitetura da cabeça femoral.

Em 2002, houve a primeira descrição de tecnica para injetar células-tronco combinadas com a descompressão padrão do núcleo para introduzir produtos biológicos em uma área de necrose. Neste estudo de 189 quadris foram estudados. Os pacientes com doença precoce (pré-colapso) tiveram excelentes resultados aos 5 anos de acompanhamento clínico, sendo que apenas nove dos 189 quadris que requerem prótese total. No entanto, entre os pacientes que apresentavam doença do estágio III ou maior no momento da intervenção terapêutica, mais da metade evoluiu mal.

De lá para cá, estudos maiores foram realizados e seus resultados são promissores e comparáveis ​​com aqueles de estudos menores anteriores, encorajando a comunidade cientifica a aprimorar a técnica e padronizar o número de células-tronco injetadas na lesão, cujo preparo deve ser primoso, artesanal e em ambiente absolutamente livre de contaminações.

 

Tecnica

 

Para obter células-tronco mesenquimais, uma pequena incisão (2-3 mm) é feita sobre a crista ilíaca anterior da baciae o aspirado de medula é coletado. A medula óssea é então preparada e concentrada.

Enquanto parte da equipe processa o aspirado, outra inicia a técnica de descompressão do quadril. Um trocarte é avançado em direção à cabeça do fêmur sob fluoroscopia (raio X dinâmico).   Uma vez que o posicionamento ideal tenha sido alcançado, a medula óssea concentrada é injetada na lesão necrótica da cabeça femoral.

Coleta do aspirado de medula ossea rica em celulas-tronco

 

Descompressão da cabeça femoral por floroscopia

Cuidados pos-operatorios

 

Trata-se de um procedimento cirúrgico de baixa complexidade. Isso permite que o paciente caminhe com muletas por 2 semanas. Algumas pessoas podem ter um aumento inicial na dor; no entanto, esta é tipicamente de curta duração, com a maioria dos pacientes relatando alívio da dor significativo dentro de algumas semanas.

 

Concluindo, o uso da descompressão da cabeça do femur combinada com células-tronco mesenquimais na forma de medula óssea concentrada pode proporcionar alívio da dor significativo, melhora na função e, finalmente, interromper a progressão da osteonecrose da cabeça femoral. Usando esta terapia minimamente invasiva de preservação do quadril regenerativa, os pacientes jovens e em estagios inicias da doença parecem evitar a necessidade de protese e poder retornar à função normal e às atividades da vida diária.

 

Referências bibliograficas

 

  1. Herndon JH, Aufranc OE. Avascular necrosis of the femoral head in the adult. A review of its incidence in a variety of conditions. Clin Orthop Relat Res. 1972;86:43–62.
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