E se o verdadeiro problema da sua artrose de joelho não fosse apenas o desgaste, mas um processo inflamatório que nunca foi desligado? Você que já tentou fisioterapia, medicamentos e infiltrações, e ainda convive com dor, sabe como é frustrante ouvir que “não tem mais o que fazer”.
Mas um estudo experimental publicado em novembro de 2025 mostrou que, ao bloquear uma enzima chamada 15-PGDH em ratos, foi possível interromper a degeneração ou desgaste da cartilagem — algo considerado impossível até pouco tempo atrás.
Isso reforça que a artrose não é apenas “osso batendo em osso”, mas uma doença inflamatória complexa.
Aqui eu te explicarei o que esse estudo mostrou e como ele contribui e reforça o meu protocolo de tratamento da artrose.

O QUE ACONTECE COM A CARTILAGEM NA ARTROSE
A cartilagem funciona como o teflon de uma frigideira. Quando está saudável, o movimento é suave, sem atrito e sem dor.
Quando ela sofre uma agressão, começa um problema maior. A cartilagem lesionada libera substâncias inflamatórias, como as prostaglandinas. Essas substâncias avisam o corpo que “tem algo errado ali”. O problema é que esse aviso vira um alarme descontrolado.
É como um alarme de incêndio que não desliga. Ele chama mais inflamação, mais inchaço e mais destruição. E, por isso, quanto maior o processo inflamatório, mais a cartilagem é degradada. E quanto mais ela se machuca, mais inflamação aparece.

O ESTUDO QUE CHAMOU A ATENÇÃO DA MEDICINA EM 2025
Até novembro de 2025, a resposta era direta: não existe remédio capaz de regenerar cartilagem.
Mas uma descoberta publicada em novembro de 2025 na revista científica Science, por pesquisadores da Universidade de Stanford (EUA), trouxe uma nova perspectiva para o tratamento da artrose de joelho. O estudo apresentou uma abordagem inovadora que vai além do alívio da dor, ao demonstrar a possibilidade de estimular a regeneração da cartilagem articular envelhecida.
Os pesquisadores investigaram um mecanismo pouco explorado do envelhecimento das articulações e mostraram que é possível não apenas retardar o desgaste, mas também melhorar a qualidade do tecido cartilaginoso, algo considerado improvável até poucos anos atrás.
O foco da pesquisa foi a enzima 15-PGDH, que tende a se acumular na cartilagem com o passar do tempo, contribuindo para inflamação crônica, perda de colágeno e enfraquecimento do tecido. Ao inibir essa enzima com uma pequena molécula, os cientistas observaram regeneração da cartilagem em modelos animais idosos, sem o uso de células-tronco.
Em vez de introduzir novas células, o tratamento estimulou os próprios condrócitos, que são as células específicas da cartilagem, a voltarem a produzir cartilagem hialina, o tipo mais resistente e funcional da articulação, ao mesmo tempo em que reduziu a formação de fibrocartilagem, tecido mais rígido e típico da artrose.
Esse achado reforça que o futuro do tratamento da artrose está na modulação do processo inflamatório e na criação de um ambiente articular favorável à regeneração da cartilagem.

RESUMINDO A ENZIMA 15-PGDH
Em resumo, pense nessa enzima como um interruptor que mantém a inflamação ligada. Quando os pesquisadores desligaram esse interruptor:
- a cartilagem parou de morrer
- o desgaste desacelerou
- o ambiente da articulação melhorou
Ou seja, não foi mágica. Eles consertaram o ambiente, e a cartilagem conseguiu sobreviver.
A figura abaixo mostra a estrutura criomicroscópica da enzima.

POR QUE ISSO É TÃO IMPORTANTE
Esse estudo confirma algo fundamental: a artrose não acontece só porque o osso “encosta no osso”. Ela acontece porque a articulação vira um ambiente tóxico para a cartilagem.
Perda de menisco, obesidade, traumas e genética são como pequenos vazamentos. Se ninguém fecha o registro, a casa continua alagando.
A pesquisa mostrou que, ao fechar um desses registros inflamatórios, o estrago para.
É importante reforçar que isso ainda foi feito apenas em ratos e até poder ser utilizado por humanos, ainda há muitos testes pela frente. Mas é um avanço promissor para o tratamento de doenças articulares.
ARTROSE TEM CURA
Embora essa descoberta contribua muito para o avanço da ciência, sabemos que o tratamento da artrose não ocorre de maneira isolada e não depende de um único remédio. A artrose é uma doença complexa, multifatorial, e exige uma abordagem estruturada, contínua e bem planejada.
Essa nova pesquisa amplia nosso entendimento sobre a regeneração da cartilagem e reforça algo essencial: quando o ambiente inflamatório da articulação é controlado, o joelho responde melhor. Mas, na prática clínica, esse controle acontece por meio de um conjunto de ações, e não de uma solução única.
Para facilitar o entendimento do paciente, gosto de resumir o tratamento da artrose em um conceito simples e direto: CURA, no qual cada letra representa um pilar essencial. Se um deles falha, o resultado fica comprometido.
Leia também: Artrose no joelho tem cura? Entenda o que a medicina diz
C – Comprometimento do paciente
Nenhum tratamento funciona se o paciente não participa ativamente do processo. Tratar artrose sem comprometimento é como querer que o carro rode melhor sem tirar o excesso de peso do porta-malas.
Perda de peso, atividade física regular, sono adequado e alimentação equilibrada reduzem a sobrecarga mecânica e a inflamação dentro do joelho. Em muitos casos, só essa mudança já gera alívio significativo da dor.
O joelho não melhora com repouso prolongado. Ele melhora quando passa a ser usado da forma correta, com estímulo adequado e progressivo.
U – União da equipe multiprofissional
A artrose não é responsabilidade de um único profissional e dificilmente haverá resultados positivos no tratamento se assim for. O médico define a estratégia, mas o sucesso do tratamento depende da atuação conjunta do fisioterapeuta, do educador físico e, quando necessário, do nutricionista.
Eu costumo dizer que é como uma obra: não adianta ter um bom projeto se a execução for falha. Quando a equipe trabalha alinhada, os resultados aparecem mais rápido e se sustentam ao longo do tempo.
R – Racionalidade no atendimento
Cada joelho tem uma história única. Existem pacientes jovens com artrose avançada e idosos com artrose leve. Há quem tenha dor intensa com pouco desgaste e quem apresente grande desgaste com poucos sintomas.
Por isso, o tratamento precisa ser individualizado. Tratar todos da mesma forma é como prescrever o mesmo óculos para pessoas com graus diferentes de visão.
Racionalidade significa escolher o tratamento certo, no momento certo, para a pessoa certa.
A – Administração correta dos recursos terapêuticos
É aqui que entram os recursos modernos da ortopedia e da medicina regenerativa. Ácido hialurônico, hidrogéis, PRP, células-tronco e outras terapias atuam como um óleo de boa qualidade dentro da articulação. Eles não reconstroem tudo sozinhos, mas melhoram o ambiente articular, reduzem inflamação e permitem que o joelho funcione melhor.
Quando bem indicados e associados aos outros pilares, esses recursos potencializam os resultados e ajudam a evitar procedimentos mais agressivos.
E ONDE ENTRA ESSE POSSÍVEL “NOVO REMÉDIO”?
Se no futuro o bloqueio da enzima 15-PGDH se tornar um tratamento disponível para humanos, ele será mais uma ferramenta dentro de uma estratégia completa, e não uma solução isolada.
Na artrose, quem promete resultado fácil geralmente está oferecendo ilusão. O que funciona é método, constância e visão de longo prazo, sempre aplicada à prática de atividade física regular.
FECHANDO A CONVERSA
Então, vemos que a artrose não é o fim da linha. É um problema complexo, mas tratável.
Quando o paciente se envolve, a equipe trabalha de forma integrada e o tratamento segue uma lógica bem definida, o joelho responde — com menos dor, mais função e melhor qualidade de vida.
A ciência está avançando. Mas o que realmente muda o jogo já está disponível: estratégia, disciplina e tratamento bem conduzido.
REFERÊNCIAS
SINGLA, M. et al. Inhibition of 15-hydroxy prostaglandin dehydrogenase promotes cartilage regeneration. Science, 2025. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/41308124/. Acesso em: 31 jan. 2026.







