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Não faça isso se você tem condromalácia

Antes de tudo: condromalácia não é uma sentença de dor eterna. Se você já recebeu o diagnóstico de condromalácia patelar, é bem provável que tenha saído da consulta com medo. Medo de piorar, medo de não poder mais se exercitar, medo de desenvolver artrose, medo de precisar de cirurgia no futuro. Muitos pacientes chegam ao consultório dizendo que ouviram frases como: “Seu joelho está gasto”, “Isso não tem muito o que fazer”, “Você vai ter que aprender a conviver com essa dor”.

Esse tipo de abordagem gera ansiedade, insegurança e, pior ainda, decisões erradas no tratamento.

A verdade é que a condromalácia, na maioria dos casos, pode e deve ser controlada. Mas existe um detalhe fundamental: o que você faz depois do diagnóstico faz toda a diferença. Alguns comportamentos, apesar de muito comuns, pioram a dor, aceleram a progressão do problema e roubam qualidade de vida.

Aqui te explicarei com calma e clareza o que você não deve fazer se tem condromalácia, por que esses erros são tão frequentes e qual é o caminho mais seguro e eficaz segundo a ortopedia moderna e a medicina do esporte.

O QUE REALMENTE É A CONDROMALÁCIA PATELAR?

A condromalácia patelar é uma alteração da cartilagem que fica na parte de trás da patela, o osso que chamamos popularmente de rótula. Essa cartilagem existe para permitir que o joelho dobre e estenda de forma suave, sem atrito excessivo.

Para facilitar o entendimento, gosto de usar uma analogia simples:
a cartilagem funciona como um amortecedor liso, parecido com o asfalto bem conservado de uma estrada. Enquanto ele está íntegro, o carro passa sem trepidação. Quando surgem buracos e irregularidades, cada passagem gera impacto, desconforto e desgaste maior.

Na condromalácia, essa cartilagem perde qualidade. Ela pode ficar mais mole, irregular ou afinada. Isso não acontece de um dia para o outro, nem apenas por “uso excessivo”. Na maioria das vezes, está relacionado a desequilíbrios musculares, sobrecarga mal distribuída e falhas na biomecânica do movimento.

SINTOMAS MAIS COMUNS

  1. Dor na frente do joelho, especialmente ao subir ou descer escadas
  2. Desconforto ao ficar muito tempo sentado
  3. Sensação de estalo ou atrito ao movimentar o joelho
  4. Inchaço após esforço
  5. Queda de rendimento em atividades físicas

Um ponto muito importante: nem toda alteração vista na ressonância magnética explica a dor do paciente. Muitas pessoas têm sinais de condromalácia nos exames e não sentem nada. Outras sentem muita dor com alterações leves. Por isso, eu sempre digo que o exame físico e a avaliação funcional são fundamentais.

Muita gente recebe o diagnóstico de condromalácia e simplesmente aceita que terá de conviver com dor para sempre. Mas esse é um dos maiores erros. Antes de tudo, é essencial confirmar se o diagnóstico está correto e entender de onde o problema realmente vem.

A partir disso, o foco deve ser em estratégias para impedir a progressão da doença, e a principal delas hoje é a prescrição adequada de atividade física.

Não aceite diagnósticos superficiais. Busque uma segunda opinião e uma avaliação completa para saber exatamente o que está acontecendo.

NÃO FAÇA ISSO SE VOCÊ TEM CONDROMALÁCIA

PARAR COMPLETAMENTE DE SE MOVIMENTAR

Esse é, disparado, o erro mais comum — e o mais prejudicial.

Durante muito tempo, pacientes com dor no joelho foram orientados a “poupar”, “evitar esforço” e “não forçar a articulação”. Hoje sabemos que isso vai na contramão do que a ciência mostra.

A cartilagem não tem vasos sanguíneos próprios. Ela depende do movimento para receber nutrientes e quando você se movimenta de forma controlada, o líquido articular entra e sai da cartilagem, levando oxigênio e nutrientes. Quando você para, esse mecanismo falha.

Além disso, a atividade física regular é um potencial anti-inflamatório, o que reduz a inflamação ativa na condromalácia patelar.

Ficar completamente parado é como deixar um portão enferrujando: quanto menos você mexe, mais difícil fica movimentar depois.

As diretrizes da American Academy of Orthopaedic Surgeons são claras ao afirmar que atividade física bem orientada é parte essencial do tratamento da condromalácia.

FAZER EXERCÍCIOS ERRADOS ACHANDO QUE “QUALQUER EXERCÍCIO SERVE”

Outro erro muito frequente é achar que basta “fortalecer o joelho” sem critério.

Nem todo exercício é adequado para quem tem condromalácia, principalmente nas fases de dor. Exercícios mal escolhidos podem aumentar a compressão da patela contra o fêmur, piorando os sintomas.

Alguns exemplos comuns de erro:

  1. Agachamentos muito profundos sem preparo
  2. Corrida em excesso sem fortalecimento prévio
  3. Treinos de impacto em fases dolorosas
  4. Ignorar dor durante o exercício

A literatura mostra que o fortalecimento do quadríceps, especialmente do vasto medial, além dos glúteos e do core, é essencial para melhorar o alinhamento da patela e reduzir a sobrecarga articular.

ACHAR QUE O TRATAMENTO SE RESUME A REMÉDIO

Analgésicos e anti-inflamatórios podem ser úteis em momentos específicos, mas eles não resolvem o problema.

O uso frequente dessas medicações apenas diminui a dor temporariamente, sem corrigir a causa. Além disso, o uso prolongado pode trazer efeitos colaterais importantes, especialmente gastrointestinais e renais.

Estudos publicados no Journal of Orthopaedic & Sports Physical Therapy mostram que o tratamento baseado apenas em medicação não altera a evolução da dor patelofemoral a médio e longo prazo.

Se o plano terapêutico termina na prescrição de remédio, ele está incompleto.

Leia também: Quem tem condromalácia patelar pode pedalar?

IGNORAR O IMPACTO DO PESO CORPORAL E DA ALIMENTAÇÃO

O joelho é uma articulação que sofre carga o tempo todo. Para cada quilo a mais no corpo, o joelho pode receber até quatro quilos extras de impacto em atividades simples como caminhar ou subir escadas.

Além disso, uma alimentação rica em ultraprocessados, açúcar e gorduras ruins favorece um estado inflamatório crônico no organismo, que prejudica a saúde articular.

Estudos da Harvard Medical School associam padrões alimentares anti-inflamatórios à melhora da dor articular e da função do joelho.

O joelho não é um sistema isolado. Ele reflete o que acontece no corpo como um todo.

ACEITAR UM DIAGNÓSTICO SUPERFICIAL SEM QUESTIONAR

Esse é um erro silencioso, mas extremamente comum.

Nem toda dor na parte da frente do joelho é causada apenas pela cartilagem. Muitas vezes, a condromalácia é apenas parte do quadro. Desequilíbrios musculares, alterações na pisada, encurtamentos musculares e falhas no controle do movimento costumam ser os verdadeiros vilões.

Por isso, é fundamental:

  1. Uma avaliação clínica detalhada
  2. Exame físico completo
  3. Análise do movimento

Não aceite diagnósticos rápidos baseados apenas em exames de imagem. Buscar uma segunda opinião, quando necessário, é sempre recomendado.

Neste vídeo eu falo um pouco mais sobre o assunto: “Não é Condromalácia e agora? Pode ser plica sinovial medial”: https://www.youtube.com/watch?v=hRw9XbU0w88&t=4s.

O QUE REALMENTE FUNCIONA NO TRATAMENTO DA CONDROMALÁCIA HOJE

EXERCÍCIO FÍSICO BEM ORIENTADO É O PILAR DO TRATAMENTO

As principais instituições internacionais, como a AAOS, a American Orthopaedic Society for Sports Medicine e a Mayo Clinic, concordam em um ponto central: o tratamento começa pelo movimento correto.

Isso inclui:

  1. Fortalecimento progressivo
  2. Exercícios em cadeia cinética fechada: são aqueles em que o pé fica apoiado no chão, e o corpo se move sobre ele. Isso faz com que a força seja distribuída entre várias articulações, reduzindo a sobrecarga no joelho. Por isso, costumam ser mais seguros e melhor tolerados por quem tem condromalácia.
  3. Bicicleta ergométrica como exercício aeróbico seguro
  4. Respeito à dor e à adaptação individual

A bicicleta, por exemplo, é uma excelente ferramenta porque promove movimento contínuo, melhora a nutrição da cartilagem e gera baixo impacto.

FISIOTERAPIA MODERNA E BASEADA EM EVIDÊNCIAS

A fisioterapia atual vai muito além de aparelhos. Ela trabalha:

  1. Reeducação do movimento
  2. Controle neuromuscular
  3. Correção biomecânica
  4. Retorno seguro à atividade física

MEDICINA REGENERATIVA: QUANDO PODE AJUDAR

A medicina regenerativa pode ser uma aliada em casos bem indicados. Entre as opções estudadas estão:

  1. Ácido hialurônico
  2. PRP (plasma rico em plaquetas)

Essas terapias não substituem o fortalecimento e a reeducação do movimento. Elas funcionam melhor quando fazem parte de um plano completo.

CIRURGIA É EXCEÇÃO, NÃO REGRA

A maioria dos pacientes com condromalácia não precisa de cirurgia. Quando indicada, geralmente envolve procedimentos minimamente invasivos e sempre deve ser acompanhada de reabilitação adequada. Cirurgia sem reeducação funcional não resolve o problema.

Aqui um falo um pouco mais sobre a principal causa da condromalácia patelar: “Joelho valgo predispõe a condromalácia? Tem correção?”: https://www.youtube.com/watch?v=KI44apOVPCw&t=2s.

CONDROMALÁCIA É UM ALERTA, NÃO UM FIM

A condromalácia patelar não deve ser encarada como uma sentença de limitação permanente. Ela é um sinal de que o joelho está pedindo ajustes.

O maior erro não está na cartilagem, mas nas decisões tomadas após o diagnóstico. Parar de se movimentar, confiar apenas em remédios ou aceitar explicações superficiais leva à dor crônica.

Quando o paciente entende o problema, participa do tratamento e segue um plano baseado em ciência, o joelho responde.

Condromalácia não significa fim da atividade física, pois o movimento bem orientado é um fator de proteção.

E, caso você queira saber um pouco mais sobre o assunto, neste vídeo eu explico um pouco melhor sobre os exercícios recomendados “Condromalácia – Que Exercícios são os mais Recomendados?” https://www.youtube.com/watch?v=nEsabD348og&t=6s.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

VAN DER HEIJDEN, R. A. et al. Exercise therapy for adolescents and adults with pain behind or around the kneecap (patellofemoral pain). Cochrane Database of Systematic Reviews, Londres, 2015. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/26158920/. Acesso em: 2025.

BARTON, C. J. et al. Best practice guide to conservative management of patellofemoral pain. British Journal of Sports Medicine, Londres, 2015. Disponível em: https://pubmed.ncbi.nlm.nih.gov/25082920/. Acesso em: 2025.

HARVARD MEDICAL SCHOOL. Diet, inflammation, and joint health. Boston: Harvard Health Publishing, 2024. Disponível em: https://www.health.harvard.edu. Acesso em: 2025.

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