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Qual a melhor prótese para quem tem artrose?

Sim, uma prótese de joelho pode dar errado. E não, isso não acontece por azar.

Quando uma prótese não é bem indicada, quando a técnica cirúrgica não respeita a biomecânica do joelho ou quando o paciente não é preparado da forma correta, essa prótese pode durar muito pouco. Em alguns casos, menos de cinco anos. E isso é algo que precisa ser falado com clareza.

Aqui, explicarei de forma simples e honesta tudo o que você precisa entender sobre prótese de joelho: desde a indicação correta até os cuidados que realmente fazem diferença no resultado final.

POR QUE ALGUMAS PRÓTESES DE JOELHO FALHAM TÃO CEDO?

Muita gente acredita que a prótese tem um “prazo de validade”. Isso não é exatamente verdade.

O que acontece, na prática, é que algumas próteses acabam soltando ou falhando precocemente porque algo foi negligenciado no processo. Pode ter sido a técnica cirúrgica, o tipo de prótese escolhido ou, muito frequentemente, a falta de preparo do paciente antes da cirurgia.

A prótese não é só metal e plástico. Ela depende do osso, do músculo, do equilíbrio hormonal e da capacidade do corpo de se adaptar.

COMO AS PRÓTESES DE JOELHO EVOLUÍRAM

As primeiras próteses de joelho começaram a se popularizar nos anos 80 e início dos anos 90. Naquela época, o conceito dominante era o chamado alinhamento anatômico.

A ideia era simples: deixar o joelho o mais reto possível. E durante muito tempo isso foi considerado o padrão ouro.

O problema é que, com os anos, começou-se a perceber algo curioso: mesmo quando a cirurgia era tecnicamente perfeita, muitas próteses se soltavam depois de 10 ou 15 anos.

Isso levou a uma pergunta importante: Será que o joelho humano realmente foi feito para ser totalmente reto?

O JOELHO NÃO É UMA DOBRADIÇA

Quando caminhamos, o joelho não se movimenta apenas para frente e para trás. Existe uma rotação natural, um pequeno movimento para dentro chamado momento valgo.

Quando implantamos uma prótese muito rígida, que não respeita esse movimento natural, ela começa a sofrer um estresse anormal. Com o tempo, isso cobra seu preço.

Foi a partir dessa observação que surgiu um novo conceito.

ALINHAMENTO CINEMÁTICO: RESPEITAR O MOVIMENTO NATURAL

A partir de 2010, estudos liderados por autores como Stephen Howell começaram a mostrar que respeitar a biomecânica individual do paciente fazia muito mais sentido.

No alinhamento cinemático, o joelho não fica perfeitamente reto após a cirurgia. Ele mantém um leve desalinhamento fisiológico, muito próximo do joelho natural daquele paciente.

Na prática, isso significa:

  1. Movimento mais natural
  2. Menos sobrecarga
  3. Menor risco de soltura
  4. Mais conforto no dia a dia

E os resultados começaram a aparecer.

Flexão, extensão, rotação interna e rotação externa são os principais movimentos dessa articulação. A amplitude de movimento máxima de um joelho normal é 150˚ de flexão, 10˚ de hiperextensão, 10˚ de rotação interna e 40˚ de rotação externa. A estabilidade articular femorotibial é dada, principalmente, pelos ligamentos cruzado anterior, cruzado posterior, colateral medial e colateral lateral.

A EVOLUÇÃO MAIS RECENTE: PRÓTESE DE BASE ROTATÓRIA

De 2020 para cá, tivemos mais um avanço importante: a prótese de base rotatória.

Nesse modelo, a base da prótese gira junto com o joelho durante a caminhada. Isso reduz ainda mais o estresse mecânico e permite movimentos mais amplos, inclusive maior flexão.

Algumas dessas próteses utilizam o conceito chamado deep dish (hiperextensão), que oferece mais estabilidade sem travar o movimento. O resultado é um joelho mais funcional e mais próximo do natural.

O QUE OS ESTUDOS MOSTRAM NA PRÁTICA?

Os números são bastante claros:

  • Satisfação do paciente:
    • Alinhamento anatômico: cerca de 50 a 60%
    • Alinhamento cinemático: próximo de 90%
  • Recuperação:
    • Anatômico: 8 a 10 semanas
    • Cinemático: 4 a 6 semanas
  • Dor após a cirurgia:
    • Anatômico: até 30% dos pacientes mantêm dor
    • Cinemático: em torno de 8%

Além disso, entre 70 e 80% dos pacientes conseguem retornar à atividade física, algo fundamental para manter a prótese saudável ao longo do tempo.

O MAIOR ERRO: OPERAR SEM PREPARAR O PACIENTE

Esse é um ponto que eu faço questão de reforçar, porque ele é decisivo para o sucesso ou para o fracasso de uma prótese de joelho.

Antes de indicar qualquer cirurgia, o paciente precisa ser avaliado como um todo. Não dá para olhar apenas o raio-X ou a ressonância. O corpo que vai receber a prótese precisa estar preparado para isso, e infelizmente muitos exames fundamentais ainda são ignorados.

Na prática, é indispensável avaliar:

  1. Níveis hormonais, tanto em homens quanto em mulheres
  2. Vitamina D, essencial para a saúde óssea
  3. Vitamina B12, fundamental para força muscular e recuperação
  4. Qualidade do osso, por meio da densitometria óssea
  5. Capacidade de ganho de massa muscular

Nós sabemos, por exemplo, que mulheres com níveis baixos de estrógeno e homens com testosterona muito reduzida têm grande dificuldade para ganhar massa muscular.

O mesmo acontece com pacientes que apresentam carências vitamínicas importantes, como deficiência de vitamina D ou B12. Nessas condições, o corpo simplesmente não está pronto para passar por uma cirurgia desse porte.

Outro exame essencial é a densitometria óssea, que avalia a quantidade de cálcio no osso. Um osso fraco, osteoporótico, não oferece sustentação adequada para a prótese.

Quando esse preparo não é feito, os riscos aumentam de forma significativa:

  1. Se o osso for fraco, a prótese pode se soltar precocemente.
  2. Se a musculatura não responde, o joelho fica instável.
  3. Se o corpo não está preparado, o risco de dor persistente e fibrose (tecido de cicatrização) ao redor da prótese é muito maior.

Por isso, preparar o paciente antes da cirurgia não é detalhe, mas sim parte fundamental do tratamento. É isso que aumenta a durabilidade da prótese, melhora o resultado funcional e reduz complicações no pós-operatório.

Leia também: Prótese de Joelho: tem como evitar?

ARTROSE NÃO É SÓ DESGASTE DO JOELHO

A artrose acontece quando todas as camadas da cartilagem se perdem, inclusive o menisco, e o osso começa a encostar no osso.

Isso gera dor, inchaço frequente, perda de mobilidade e deformidades progressivas. Mas vai além disso. Além de ser um processo inflamatório local crônico que gera dor e limitação de movimento, sabemos que a artrose está relacionada ao agravo de doenças como:

  1. Depressão
  2. Ansiedade
  3. Hipertensão
  4. Diabetes
  5. Aumento de gordura abdominal

Por isso, ela precisa ser encarada como uma doença metabólica, e não apenas como um problema ortopédico.

IDADE DEFINE SE PODE OU NÃO FAZER PRÓTESE?

Não. A indicação da prótese não depende da idade, mas sim do grau de destruição da articulação e do impacto na qualidade de vida.

Já operei pacientes jovens, inclusive com menos de 40 anos, quando não havia mais alternativa. Quando a dor se torna crônica, limitante, e todos os tratamentos conservadores, como infiltrações com ácido hialurônico ou hidrogel, plasma rico em plaquetas, entre outros falharam, chega o momento de considerar a prótese.

EXERCÍCIO FÍSICO É PARTE DO TRATAMENTO

Prótese de joelho não combina com sedentarismo.

Sem fortalecimento muscular adequado, o risco de dor e falha aumenta muito. Por isso, a atividade física bem orientada antes e depois da cirurgia é um dos fatores mais importantes para o sucesso do tratamento.

SOBRE PRÓTESES NO BRASIL

Hoje já existem próteses modernas no mercado nacional, mas infelizmente esse tipo de tecnologia ainda é difícil de acessar pelo SUS. Além disso, o mercado brasileiro ainda não acompanha totalmente os avanços internacionais.

Segundo a literatura, as próteses importadas ainda apresentam maior durabilidade.

QUAL É A MELHOR PRÓTESE DE JOELHO PARA QUEM TEM ARTROSE?

A melhor prótese de joelho para quem tem artrose não é apenas a mais moderna ou a mais cara, mas aquela que respeita a biomecânica natural do joelho, é bem indicada e implantada em um paciente corretamente preparado.

Hoje, as próteses com alinhamento cinemático e base rotatória apresentam melhores resultados, com menos dor, recuperação mais rápida e maior durabilidade. No entanto, nenhuma prótese funciona bem sem preparo adequado do paciente, incluindo avaliação óssea, muscular, hormonal e metabólica.

Em resumo, a melhor prótese é o resultado da combinação entre boa tecnologia, técnica correta e cuidado completo com o paciente.Caso você queira saber um pouco mais sobre o assunto, assista ao vídeo: “Prótese de Joelho – Qual a melhor?”: https://www.youtube.com/watch?v=ckyublI2vmc.

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