Receber um diagnóstico de condromalácia patelar grau 1 costuma causar mais preocupação do que o próprio achado justifica. Muitos pacientes leem o laudo e imaginam imediatamente que a cartilagem está “acabando” ou que o joelho inevitavelmente continuará piorando.
Não é isso que grau 1 significa. Estamos falando da alteração mais inicial dentro de uma das classificações utilizadas para avaliar a cartilagem da patela. Em geral, a ressonância identifica uma modificação no aspecto da cartilagem, mas ainda sem perda relevante de sua espessura ou um defeito profundo da superfície.
Outra informação importante: grau 1 não é uma etapa obrigatória antes do grau 2, 3 ou 4. Muitas pessoas permanecem estáveis e apresentam excelente evolução clínica quando os fatores responsáveis pela sobrecarga são identificados e tratados.
Aqui explicarei o que realmente significa a condromalácia grau 1, quais sintomas podem aparecer, como costumo conduzir o tratamento e por que a ressonância é apenas uma parte do diagnóstico.

1. O que é condromalácia patelar grau 1?
A patela desliza sobre uma região do fêmur chamada tróclea. As duas superfícies são revestidas por cartilagem, que permite que esse movimento aconteça com baixo atrito e distribui as cargas que passam pela articulação.
Quando aparecem alterações nessa cartilagem, o radiologista pode utilizar termos como condromalácia patelar, condropatia patelar ou alteração condral.

Uma das classificações mais conhecidas divide essas alterações em quatro graus:
- Grau 1: alteração inicial da cartilagem, geralmente sem perda evidente de sua superfície.
- Grau 2: aparecem irregularidades ou defeitos mais superficiais.
- Grau 3: a lesão passa a comprometer uma parcela maior da espessura da cartilagem.
- Grau 4: há perda da cartilagem em toda a espessura de determinada região, podendo ocorrer exposição do osso subcondral.
Na condromalácia patelar grau 1, a ressonância pode mostrar alteração de sinal da cartilagem sem um defeito estrutural importante.
Esse detalhe faz diferença. Por isso, prefiro falar em alteração inicial da cartilagem em vez de simplesmente dizer ao paciente que ele já tem um “desgaste no joelho”.
Para comparar os diferentes estágios, consulte também nosso conteúdo sobre graus de condromalácia patelar.
2. Quais são os sintomas da condromalácia grau 1?
Nem todo paciente com condromalácia patelar leve sente dor. Esse é um ponto que costuma surpreender.
Alterações da cartilagem podem aparecer em exames de pessoas que praticamente não apresentam sintomas. Por outro lado, também é possível encontrar pacientes com alterações discretas na ressonância e dor importante na região anterior do joelho.
Quando existem sintomas de condromalácia grau 1, os mais relatados são desconforto ou dor ao:
- subir ou descer escadas;
- agachar;
- correr;
- levantar depois de ficar algum tempo sentado;
- realizar exercícios que envolvem maior flexão do joelho.
Algumas pessoas também descrevem sensação de pressão ou incômodo ao redor da patela.
O problema é que esses sintomas não pertencem exclusivamente à condromalácia. Outras causas de dor patelofemoral podem produzir exatamente as mesmas queixas.
É por isso que o exame físico continua sendo indispensável.
A ressonância mostra a estrutura. O diagnóstico precisa explicar por que aquele joelho está doendo.
Para entender melhor a condição como um todo, veja também nosso guia sobre condromalácia patelar.
3. Por que a condromalácia grau 1 costuma ter bom prognóstico?
O grau 1 é a alteração estrutural mais inicial dessa classificação.
Isso significa que não existe a perda de espessura cartilaginosa observada nas lesões mais avançadas.
Mas o bom prognóstico não depende apenas do número escrito no laudo.
No consultório, procuro entender principalmente o que está acontecendo fora da ressonância.
Um paciente pode ter começado a sentir dor depois de aumentar rapidamente o volume de corrida. Outro pode apresentar déficit de força do quadríceps (músculo da parte da frente da coxa) ou da musculatura do quadril. Em outros casos, características anatômicas ou um histórico de instabilidade patelar podem contribuir para a distribuição inadequada de cargas.
Por isso, a avaliação costuma considerar:
- nível e tipo de atividade física;
- volume recente de treino;
- força e controle muscular;
- mecânica do movimento;
- anatomia da articulação patelofemoral;
- histórico de trauma ou instabilidade;
- situações que desencadeiam a dor.
Quanto mais cedo esses fatores são identificados, maior a possibilidade de controlar os sintomas sem recorrer a procedimentos invasivos.

4. Condromalácia grau 1 tem cura?
Muitos pacientes chegam no meu consultório perguntando se a condromalácia grau 1 tem cura, mas antes de responder essa pergunta é preciso separar duas ideias diferentes.
Se por cura entendemos voltar a caminhar, treinar, correr e realizar atividades sem dor, muitos pacientes apresentam evolução muito boa.
Agora, se a expectativa for fazer a cartilagem voltar obrigatoriamente à mesma aparência de antes na ressonância, não é possível prometer esse resultado.
Na prática, nosso objetivo não é perseguir uma imagem perfeita. O mais importante é recuperar a função, reduzir a dor e aumentar a capacidade do joelho de suportar as atividades que fazem parte da rotina daquele paciente.
A mensagem que eu gostaria que você levasse daqui é que uma pessoa pode estar muito bem clinicamente mesmo que a ressonância continue mostrando alguma alteração.
5. Como é o tratamento da condromalácia grau 1?
O tratamento da condromalácia grau 1 é quase sempre conservador.
Cirurgia ou outros procedimentos invasivos não são indicados simplesmente porque apareceu “grau 1” em um laudo.
O tratamento começa identificando o que está sobrecarregando a articulação.
Fisioterapia individualizada
A fisioterapia costuma ocupar um papel central.
O programa pode incluir fortalecimento do quadríceps, musculatura do quadril, melhora do controle neuromuscular e progressão de movimentos que inicialmente provocavam sintomas.
Não existe um único exercício correto para todos. A escolha depende da avaliação clínica, da atividade praticada e da tolerância atual do joelho.
Veja também como funciona a fisioterapia do joelho.
Ajuste da carga
Um cenário frequente é o paciente que estava bem e aumentou rapidamente corrida, academia, subida de escadas ou volume de treino.
Nesses casos, pode ser necessário reduzir temporariamente algumas cargas. Isso não significa parar tudo.
O objetivo é encontrar uma quantidade de atividade que o joelho tolere e, a partir daí, aumentar essa capacidade progressivamente.
Neste vídeo explico melhor sobre a “Prescrição de Exercícios para Condromalacia: Conceitos e movimentos básicos”:
Fortalecimento e retorno ao esporte
À medida que os sintomas melhoram, exercícios e atividades esportivas são reintroduzidos de forma progressiva.
O fortalecimento adequado costuma ser muito mais útil do que simplesmente evitar movimentos por medo de “gastar” a cartilagem. Veja também os exercícios para quem tem condromalácia patelar.
Atividade física regular, alimentação equilibrada, sono adequado e manutenção de uma composição corporal saudável também fazem parte do cuidado global da articulação.

Aqui falo sobre “EXERCÍCIOS PARA CONDROMALÁCIA: 10 erros mais comuns”:
6. O grau 1 sempre evolui para grau 2?
Não. Talvez esse seja o mito que mais precisa ser corrigido.
Os graus descrevem como a cartilagem está naquele momento. Eles não representam uma sequência obrigatória.
Ter condromalácia grau 1 hoje não significa que o paciente terá grau 2 amanhã e, depois, grau 3 ou 4.
A evolução depende da combinação de fatores mecânicos, anatômicos, esportivos e individuais.
Quando existe boa adaptação às cargas, fortalecimento adequado e controle dos fatores associados, o quadro pode permanecer estável por muitos anos.
Para entender o estágio seguinte da classificação, leia também sobre condromalácia patelar grau 2.
7. Preciso repetir a ressonância?
Na maioria dos pacientes que evoluem bem, não há necessidade de repetir a ressonância apenas para verificar se o “grau mudou”.
A evolução clínica costuma ser mais importante.
Uma nova investigação por imagem pode ser indicada quando surgem situações como:
- piora persistente apesar de tratamento adequado;
- inchaço recorrente;
- bloqueio ou travamento do joelho;
- novo trauma;
- mudança significativa do padrão dos sintomas.
O exame deve responder a uma pergunta clínica. Repeti-lo apenas por ansiedade raramente muda a conduta.
Grau 1 pede orientação correta, não excesso de tratamento
A condromalácia patelar grau 1 é uma alteração inicial da cartilagem e, na grande maioria dos casos, não exige cirurgia nem procedimentos invasivos.
O mais importante é evitar dois extremos: ignorar sintomas persistentes ou tratar excessivamente um achado leve de ressonância.
O diagnóstico correto procura responder algo muito mais útil do que “qual é o grau?”:
por que esse joelho está doendo e o que podemos fazer para aumentar sua capacidade de suportar carga novamente?
Essa resposta orienta o tratamento.
Se sua ressonância mostrou condromalácia patelar grau 1 e você sente dor ao correr, agachar, subir escadas ou treinar, agende uma avaliação especializada do joelho e leve o laudo e as imagens da ressonância. A análise conjunta do exame físico, dos sintomas e da imagem permite confirmar se o achado está relacionado à sua dor e montar um protocolo específico para o seu caso.
Referências científicas
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