Retirar o Menisco Pode Causar Artrose de Joelho?

Receber o diagnóstico de que foi necessário retirar parte do menisco durante uma cirurgia costuma gerar medo imediato. Muitos pacientes pesquisam na internet e encontram relatos alarmantes sobre desgaste do joelho, artrose precoce, deformidade da articulação e até necessidade de prótese no futuro. Não é raro ouvir no consultório frases como: “Doutor, estou desesperado, perdi o menisco… meu joelho vai acabar?”

Essa angústia é compreensível. O menisco é uma estrutura essencial para a saúde do joelho, mas a perda parcial dele não significa, obrigatoriamente, que a artrose será inevitável. O que realmente determina o futuro da articulação é como, por que e em que contexto esse menisco foi lesionado ou removido — além do tratamento adotado depois.

Aqui te mostrarei como a perda do menisco não significa, necessariamente, o fim da saúde do seu joelho, quais são os reais riscos de evoluir para artrose após a cirurgia e, principalmente, o que a ortopedia moderna e a medicina regenerativa podem fazer para proteger sua articulação, aliviar a dor e preservar sua qualidade de vida a longo prazo

O QUE É O MENISCO E QUAL SUA FUNÇÃO NO JOELHO?

O joelho possui dois meniscos: o menisco medial (interno) e o menisco lateral (externo). Essas estruturas fibrocartilaginosas ficam entre o fêmur e a tíbia e funcionam como verdadeiros amortecedores naturais.

Entre as principais funções do menisco estão:

  1. Distribuir o peso do corpo de forma uniforme
  2. Reduzir o impacto sobre a cartilagem articular
  3. Aumentar a estabilidade do joelho
  4. Auxiliar na propriocepção (percepção do movimento pelo cérebro)

Imagine o menisco como o amortecedor de um carro. Sem ele, cada impacto da estrada é transmitido diretamente para a estrutura do veículo — no caso, para a cartilagem do joelho.

TIPOS DE LESÃO DE MENISCO: QUANDO A CIRURGIA É REALMENTE INDICADA?

Lesão meniscal traumática aguda

Esse tipo de lesão ocorre geralmente após uma torção, entorse ou trauma esportivo, sendo mais comum em pessoas jovens e ativas. Quando há dor intensa, travamento ou bloqueio do joelho, a cirurgia costuma ser indicada.

Hoje, o princípio da ortopedia moderna é claro: preservar o máximo possível do menisco.

Sempre que viável, opta-se por:

  1. Sutura meniscal, mantendo a função do amortecedor: Aqui, o menisco não é retirado, mas sim costurado, permitindo que ele cicatrize e continue exercendo sua função de amortecedor. É como consertar um pneu em vez de trocá-lo: mantendo a estrutura original, o impacto entre os ossos continua sendo absorvido, protegendo a cartilagem e reduzindo o risco de artrose futura.
  1. Técnicas de remodelação (plastia), evitando a retirada excessiva: Aqui, o cirurgião remove apenas a parte danificada, regularizando o menisco e preservando o máximo de tecido saudável. A ideia é evitar a retirada excessiva, mantendo o formato e a função do menisco o mais próximo possível do normal. Quanto maior a preservação meniscal, melhores tendem a ser os resultados a longo prazo, com menos dor e menor progressão do desgaste articular.

Lesão meniscal degenerativa (lesão de envelhecimento)

Muito comum após os 40 anos, surge sem trauma definido. Na ressonância magnética, costuma aparecer como:

  1. Lesão horizontal
  2. Lesão mixoide
  3. Extrusão do menisco

Na maioria dos casos, esse tipo de lesão NÃO deve ser operado. Estudos mostram que a cirurgia nessas situações:

  1. Oferece pouco benefício funcional
  2. Pode piorar a dor no médio prazo
  3. Acelera a progressão da artrose

Sempre que houver dúvida, é fundamental buscar segunda opinião, preferencialmente com um especialista em joelho.

Leia também: Menisco inflamado, sintomas e tratamento

O QUE ACONTECE COM O JOELHO QUANDO PARTE DO MENISCO É RETIRADA?

Quando o menisco está íntegro, o contato entre fêmur e tíbia ocorre de forma equilibrada. Após a meniscectomia parcial ou total, essa biomecânica muda de maneira significativa.

Estudos biomecânicos mostram que:

  1. A pressão entre os ossos pode aumentar em até 300%
  2. A cartilagem passa a sofrer desgaste acelerado
  3. O risco de artrose do joelho aumenta progressivamente

A literatura científica indica que cerca de 40 a 50% dos pacientes evoluem com algum grau de artrose nos primeiros 10 a 15 anos após a retirada do menisco, especialmente quando a cirurgia ocorre em idade jovem ou envolve grande perda de tecido.

MENISCO MEDIAL OU LATERAL: FAZ DIFERENÇA?

Sim, e muita. Dependendo de qual menisco foi lesionado, o risco de artrose aumenta.

  1. A retirada do menisco medial já aumenta o risco de desgaste do joelho, geralmente de forma lenta e progressiva, especialmente sem fortalecimento e controle adequado.
  2. A retirada do menisco lateral é ainda mais crítica. A retirada do menisco lateral é mais crítica, pois costuma levar a um desgaste mais rápido e agressivo da cartilagem, mesmo em pacientes jovens. Por isso, quando o menisco lateral é afetado, o acompanhamento e a proteção da articulação precisam ser ainda mais rigorosos para evitar a artrose.

Estudos mostram que a perda do menisco lateral pode aumentar em até 7 vezes o risco de degeneração (desgaste) articular, pois ele é mais móvel e fundamental para controlar a rotação do joelho.

FATORES QUE ACELERAM A ARTROSE APÓS CIRURGIA DO MENISCO

Nem todos os pacientes evoluem da mesma forma. Alguns fatores aumentam significativamente o risco de artrose após a perda do menisco:

  1. Lesão degenerativa operada indevidamente
  2. Desvio do eixo do joelho (joelho varo ou valgo)
  1. Excesso de peso e inflamação sistêmica
  2. Cirurgias repetidas no mesmo joelho
  3. Perda simultânea do menisco medial e lateral

Quanto mais fatores associados, maior a sobrecarga sobre a cartilagem.

COMO A MEDICINA REGENERATIVA AJUDA QUEM PERDEU O MENISCO?

A medicina esportiva e regenerativa trouxe avanços importantes para retardar a progressão da artrose após a meniscectomia.

Entre as principais abordagens estão:

  1. Ácido hialurônico, que melhora a lubrificação, reduz inflamação e protege a cartilagem
  2. Plasma Rico em Plaquetas (PRP), muito utilizado na Europa, especialmente em pacientes jovens com artrose inicial pós-menisco
  3. Correção do eixo do joelho (osteotomia), redistribuindo o peso para áreas menos desgastadas
  1. Terapias biológicas com aspirado de medula óssea ou tecido adiposo, ainda em evolução, mas com bons resultados sintomáticos

Essas estratégias não “criam” um novo menisco, mas ajudam a preservar a articulação e ganhar tempo com qualidade.

POSSO FAZER ATIVIDADE FÍSICA DEPOIS DE PERDER O MENISCO?

Essa é uma das perguntas mais importantes — e a resposta surpreende muita gente.

Parar de se exercitar piora o joelho. Atividade física bem orientada protege a articulação.

Pessoas que se tornam sedentárias após a cirurgia:

  1. Perdem massa muscular
  2. Ganham peso
  3. Aceleram a degeneração do joelho

Já pacientes que mantêm musculação, bicicleta, fortalecimento funcional e exercícios bem prescritos apresentam menor progressão da artrose e melhor qualidade de vida.

O FUTURO: REGENERAÇÃO DO MENISCO É POSSÍVEL?

Projetos europeus, como o MEFISTO, estudam a regeneração do menisco por meio de células-tronco associadas a estruturas chamadas scaffolds, que funcionam como moldes para formação de um novo menisco. Embora ainda não seja uma realidade disponível para todos, essa tecnologia representa uma luz concreta no futuro da ortopedia regenerativa.

INFORMAÇÃO CORRETA MUDA O PROGNÓSTICO

Perder parte do menisco não é uma sentença definitiva. O que define o futuro do seu joelho é a indicação correta da cirurgia, a preservação máxima do menisco, o controle do peso e do alinhamento, o tratamento precoce da degeneração e a manutenção da atividade física orientada.

Com acompanhamento adequado e estratégias modernas, é possível retardar a artrose, preservar a função do joelho e manter qualidade de vida por muitos anos.

E, caso você tenha interesse em saber um pouco mais sobre esse assunto, assista ao vídeo: “Retirar o Menisco causa Artrose? A verdade que ninguém te conta!”: https://www.youtube.com/watch?v=wIDUK9EZal0&t=24s.

REFERÊNCIAS

KIM, J. G.; LEE, Y. S.; BAEK, G. H. High rate of recurrent meniscal tear and lateral compartment osteoarthritis in patients treated for symptomatic lateral discoid meniscus. Clinics in Orthopedic Surgery, v. 11, n. 2, p. 226–233, 2019. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC6643190/. Acesso em: 2 jan. 2026.

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