Como Aliviar a Dor da Artrose?

Você sente dor no joelho e já ouviu que artrose é degenerativa, só tende a piorar e o jeito é aguentar”?

E se eu te dissesse que essa é uma das maiores meias-verdades da ortopedia moderna — e que insistir nela pode estar, agora mesmo, acelerando o desgaste do seu joelho?

A dor da artrose de joelho não surge apenas porque a cartilagem está gasta. Na maioria dos casos, ela vem de processos silenciosos e tratáveis dentro do osso e da articulação, que passam despercebidos até se transformarem em dor constante, limitação e perda de autonomia. Ignorar isso é como continuar dirigindo um carro com a luz do óleo acesa esperando que o problema se resolva sozinho.

Aqui você entenderá como aliviar a dor da artrose de joelho de forma inteligente, o que realmente provoca essa dor, quais erros comuns estão piorando o quadro e quais estratégias, respaldadas pela ortopedia moderna e pela medicina regenerativa, podem reduzir a inflamação, proteger a articulação e devolver movimento.

ANTES DE TRATAR A ARTROSE, É PRECISO CONFIRMAR O DIAGNÓSTICO CORRETO

Um dos maiores erros no tratamento da dor no joelho é assumir que toda dor articular é artrose. O simples achado de “desgaste” em um exame de imagem não significa necessariamente que a dor do paciente vem da artrose.

Muitos pacientes apresentam:

  1. Alterações leves no raio-X sem dor
  2. Dor intensa com artrose mínima
  3. Outras causas de dor coexistindo com artrose

Por que isso é importante?

Porque tratar a causa errada gera falha terapêutica. Tendinites, lesões meniscais iniciais, dor muscular ou até sobrecarga biomecânica podem simular artrose. O diagnóstico correto depende de:

  1. História clínica detalhada
  2. Exame físico bem feito
  3. Correlação adequada com exames de imagem

DE ONDE VEM A DOR DA ARTROSE DE JOELHO?

A dor da artrose é multifatorial e não vem da cartilagem, pois ela não possui terminações nervosas. Os principais mecanismos são:

1. Edema ósseo: a dor que vem “de dentro do osso”

Quando a cartilagem se desgasta, ela perde sua função de absorver impacto. Com isso, a carga do corpo passa diretamente para o osso subcondral, localizado logo abaixo da cartilagem.

Esse osso reage com inflamação e microfraturas, formando o chamado edema ósseo, que funciona como um hematoma interno.

Características da dor por edema ósseo:

  1. Dor profunda
  2. Dor ao apoiar o peso
  3. Dor noturna
  4. Sensação de “osso doendo”

Esse mecanismo é um dos principais responsáveis pela dor intensa na artrose, especialmente nos estágios iniciais e intermediários.

2. SINOVITE ARTRÍTICA: INFLAMAÇÃO DENTRO DA ARTICULAÇÃO

A quebra da cartilagem libera fragmentos e mediadores inflamatórios que irritam a membrana sinovial, estrutura responsável pela produção do líquido articular.

Essa inflamação, chamada de sinovite artrítica, causa:

  1. Inchaço
  2. Aumento do líquido articular
  3. Rigidez
  4. Dor ao movimento

Por que a sinovite dói?

Porque a sinóvia é altamente inervada. Quando inflamada, ela se torna uma grande geradora de dor, principalmente durante a movimentação.

3. CRONIFICAÇÃO DA DOR: QUANDO O CÉREBRO AMPLIFICA O SOFRIMENTO

Quando a dor persiste por mais de 3 meses, ocorre uma mudança no sistema nervoso central. O cérebro passa a interpretar estímulos normais como dor intensa — fenômeno conhecido como sensibilização central, algodistrofia ou hiperestesia.

Nesses casos:

  1. A dor é desproporcional aos exames
  2. Pequenos estímulos geram grande sofrimento
  3. O tratamento local isolado não resolve

Esse tipo de dor exige uma abordagem mais ampla, envolvendo controle da inflamação, reabilitação adequada e, em alguns casos, estratégias específicas para dor crônica.

Leia também: Derrame articular com sinais de sinovite, o que isso significa em seu exame?

CONTROLE DA DOR DA ARTROSE: O PRIMEIRO PASSO PARA TRATAR A ARTROSE DE JOELHO COM SUCESSO

Quando falamos em tratamento da artrose de joelho, existe um ponto que precisa ficar muito claro: não é possível tratar a artrose sem antes controlar a dor. Embora não exista um protocolo único e fechado para todos os pacientes, a experiência clínica e os estudos mostram que o alívio da dor da artrose é a base para qualquer estratégia terapêutica eficaz.

A dor da artrose não é apenas um sintoma. Ela altera o funcionamento do joelho e interfere diretamente na recuperação. Sempre que o paciente sente dor, o organismo entra em um mecanismo de defesa conhecido como inibição muscular. Nesse processo, os músculos ao redor do joelho — principalmente o quadríceps — passam a trabalhar menos. Isso leva à perda de massa muscular, fraqueza e atrofia, fatores que aumentam ainda mais a sobrecarga articular.

Com menos músculo para proteger a articulação, o impacto sobre o joelho cresce, a cartilagem sofre mais desgaste e a artrose progride mais rapidamente. É um ciclo vicioso: dor gera fraqueza, fraqueza gera mais pressão, e mais pressão gera ainda mais dor. Por isso, tentar fortalecer ou estimular atividade física sem antes aliviar a dor da artrose costuma levar ao fracasso do tratamento.

Por que aliviar a dor da artrose antes de fortalecer?

O controle da dor da artrose de joelho permite que o paciente volte a se movimentar com segurança, recupere a ativação muscular e consiga aderir ao tratamento. Sem dor, o corpo deixa de “bloquear” a musculatura, o que cria o ambiente ideal para iniciar a reabilitação.

Somente após o alívio da dor é possível avançar para o segundo degrau do tratamento: o fortalecimento muscular direcionado, que devolve estabilidade ao joelho e reduz a carga sobre a cartilagem. Esse fortalecimento é essencial para diminuir a progressão da artrose e melhorar a função da articulação no dia a dia.

Com a musculatura fortalecida e a dor controlada, o próximo passo é a inserção progressiva do exercício físico e do esporte, sempre respeitando o grau da artrose e as limitações individuais. Nesse momento, associam-se outras estratégias fundamentais, como emagrecimento, melhora do condicionamento físico e controle da inflamação sistêmica, que potencializam ainda mais o alívio da dor e a preservação da articulação.

Esse tratamento em etapas — controle da dor, fortalecimento e atividade física — é o que permite quebrar o ciclo de dor e desgaste da artrose de joelho. E é justamente nos níveis mais avançados desse processo que se encontram as abordagens com maior respaldo científico e melhores resultados clínicos, muitas vezes surpreendendo pacientes que acreditavam não ter mais solução.

OS DEGRAUS DO TRATAMENTO DA DOR NA ARTROSE: DA MEDICAÇÃO AO MOVIMENTO

No tratamento da artrose, costumo explicar aos pacientes que seguimos uma escada terapêutica, ou seja, diferentes níveis de intervenção, que vão do mais simples ao mais complexo, sempre respeitando a intensidade da dor, o estágio da doença e o perfil de cada pessoa.

1º degrau: analgésicos e anti-inflamatórios naturais

O primeiro passo no controle da dor da artrose envolve os analgésicos simples e, sempre que possível, os chamados anti-inflamatórios naturais. Hoje já existem diversas substâncias com algum grau de evidência científica que atuam na inflamação crônica da articulação.

Entre as mais utilizadas estão:

  1. Cúrcuma longa
  2. Garra-do-diabo
  3. Ômega-3

Esses compostos podem ser usados de forma contínua e ajudam a modular a resposta inflamatória da articulação, com menor risco de efeitos colaterais quando comparados às medicações tradicionais.

2º degrau: analgésicos e anti-inflamatórios convencionais

No segundo nível entram os analgésicos e anti-inflamatórios não hormonais, como dipirona, paracetamol, nimesulida, diclofenaco e cetoprofeno. Essas medicações atuam diretamente na cascata inflamatória e costumam proporcionar alívio mais rápido da dor.

No entanto, é fundamental ter muito cuidado. O uso prolongado ou indiscriminado pode causar problemas silenciosos, como:

  1. Redução da função renal
  2. Lesões gástricas
  3. Aumento do risco cardiovascular

Por isso, quando necessários, devem ser usados por curto período, geralmente entre 5 e 10 dias, e com atenção especial em pacientes com hipertensão, histórico de problemas gástricos ou doenças renais. Na prática clínica, sempre que possível, busco substituir essa classe por outras estratégias para evitar danos a longo prazo.

3º degrau: corticoides por via oral

No terceiro nível estão os corticoides sistêmicos, também conhecidos como cortisona via oral. Eles costumam ser prescritos em situações específicas, como doenças reumatológicas associadas.

O grande problema é que, no Brasil, essas medicações são facilmente encontradas nas farmácias, muitas vezes sem prescrição médica. Por serem hormonais, seu uso inadequado pode trazer efeitos colaterais importantes, como:

  1. Aumento abrupto da glicemia
  2. Perda de massa muscular
  3. Queda da imunidade
  4. Sangramentos gastrointestinais
  5. Osteonecrose, uma condição grave em que o osso perde sua irrigação e pode “morrer”

Por esses riscos, o uso de corticoides por via oral deve ser extremamente criterioso. Na minha prática, é uma classe que raramente prescrevo.

4º degrau: infiltrações articulares

No quarto nível entram as infiltrações articulares, que já representam uma abordagem mais invasiva. Elas são especialmente indicadas para pacientes com artrose associada a intensa reação inflamatória dentro da articulação.

O procedimento consiste em inserir uma agulha dentro da articulação, retirar o excesso de líquido inflamatório e aplicar uma substância terapêutica. Entre as opções estão:

  1. Corticoide intra-articular, que deve ser usado com cautela e, idealmente, apenas uma vez na vida
  2. Ácido hialurônico, considerado um modificador da doença, pois ajuda a frear a progressão da artrose e melhora a lubrificação articular
  3. Plasma Rico em Plaquetas (PRP), obtido a partir do próprio sangue do paciente

Embora o PRP ainda seja considerado experimental no Brasil, em outros países ele é amplamente utilizado, com evidência científica de alto nível, mostrando redução da dor e possível desaceleração da progressão da artrose, com resultados superiores aos da cortisona e do ácido hialurônico em alguns estudos.

5° degrau: bloqueios de dor

O quinto nível envolve os bloqueios de dor, indicados principalmente para pacientes com dor crônica intensa, hiperestesia ou condições como algodistrofia. São casos em que a dor está desproporcional aos achados nos exames.

Nesses procedimentos, são realizados bloqueios dos nervos responsáveis por transmitir a dor ao cérebro. O efeito pode durar de três a seis meses, permitindo que a dor volte de forma mais fisiológica. Esses bloqueios também podem ser utilizados de forma paliativa em pacientes que não têm condições de realizar cirurgia.

6° degrau: tratamento cirúrgico

O sexto nível é o tratamento cirúrgico, que muitas vezes gera medo, mas quando bem indicado, pode trazer grande alívio da dor e melhora da qualidade de vida.

Entre as opções cirúrgicas estão:

  1. Subcondroplastia, indicada para tratar o edema ósseo. Neste vídeo eu explico melhor como essa técnica é realizada: “Artrose no joelho: Tratamento revolucionário pela Subcondroplastia”: https://www.youtube.com/watch?v=QPYy4lKkYQw&t=2s e aqui eu mostro de perto o procedimento realizado por mim no centro cirúrgico: https://www.youtube.com/watch?v=efSwBIH3m5Y.
  1. Artroscopia, para limpeza articular e desbloqueio do joelho
  2. Osteotomia, que redistribui o peso para áreas saudáveis da articulação
  3. Prótese de joelho, parcial ou total

Quando existe indicação formal baseada na literatura, adiar a cirurgia pode significar perder o chamado “tempo cirúrgico”, tornando o tratamento futuro mais difícil.

7º degrau: atividade física — o tratamento mais eficaz

Por fim, chegamos ao sétimo e mais importante degrau: a atividade física. Segundo a literatura científica, o exercício físico é a estratégia com maior evidência para alívio da dor na artrose.

Mesmo com dor, é possível se movimentar. A atividade não precisa, necessariamente, sobrecarregar a articulação comprometida. Exercícios para outros segmentos do corpo, pilates, hidroterapia e até musculação adaptada podem reduzir significativamente a dor.

A atividade física tem efeito anti-inflamatório sistêmico, reduz a dor crônica e melhora a função articular. Além disso, o músculo ativo libera substâncias chamadas miocinas, que contribuem para uma vida mais longa e com melhor qualidade.

E caso você queira saber mais sobre o assunto, neste vídeo eu explico melhor sobre o tema: “Dor da Artrose: Como Aliviar?”: https://www.youtube.com/watch?v=BtYplQpXM6g&t=1s.

REFERÊNCIAS

TAYEBI, S. M.; POORHABIBI, H.; HEIDARY, D.; AMINI, M. A.; SADEGHI, A. et al. Impact of aerobic exercise on chronic inflammation in older adults: a systematic review and meta-analysis. BMC Sports Science, Medicine and Rehabilitation, v. 17, p. 229, 2025. Disponível em: https://pmc.ncbi.nlm.nih.gov/articles/PMC12335091/. Acesso em: 02 jan. 2026.

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