Sem dúvida nenhuma, uma das piores experiências que uma pessoa pode viver é a dor da artrose.
Hoje abordarei um tema bastante polêmico: o uso do canabidiol no tratamento da dor da artrose. Será que ele funciona mesmo? Será que está sendo usado da forma correta? Ou será que, em muitos casos, estamos usando uma solução exagerada para um problema que poderia ser tratado de maneira mais simples?
Hoje, milhares de pacientes estão em tratamento e muitos já fazem uso do canabidiol (CBD) buscando alívio da dor. O que pouca gente fala, no entanto, são os riscos, limitações e exageros por trás desse tipo de tratamento. E sim, eles existem.
Aqui te explicarei com clareza o que realmente funciona, o que é puro marketing e o que, em alguns casos, pode até prejudicar a sua saúde. Por isso, é importante entender o assunto com profundidade antes de sair usando qualquer medicação.

O QUE É A ARTROSE E POR QUE ELA DÓI TANTO?
A artrose é caracterizada pela perda progressiva da cartilagem da articulação. No joelho, por exemplo, além da cartilagem, o menisco — que funciona como um amortecedor — vai perdendo volume, sai do lugar e o osso começa a encostar no osso. Com o tempo, o joelho entorta, perde mobilidade e a dor aparece.
Essa dor é chamada de dor mecânica. Em repouso ou durante o sono, muitas vezes ela não existe. Mas basta caminhar, subir escadas ou permanecer muito tempo em pé para que a dor apareça e vá limitando a vida da pessoa. A mobilidade diminui, a independência se perde e, quando o tratamento não é feito de forma adequada, as consequências podem ser graves, chegando, em casos extremos, à necessidade de cadeira de rodas.
Por isso, a artrose precisa ser tratada de forma multidisciplinar, e o pilar final do tratamento sempre será a prescrição correta de atividade física, capaz de frear a progressão da doença.

DOR CRÔNICA: QUANDO O PROBLEMA DEIXA DE SER SÓ A ARTICULAÇÃO
Nos últimos anos, a medicina passou a olhar a dor de uma forma diferente. Hoje, a dor não é vista apenas como um sintoma, mas pode ser considerada uma doença em si.
Quando a dor não é tratada adequadamente por mais de 90 dias, ela pode se transformar em dor crônica. Nesse cenário, o cérebro sofre alterações anatômicas e passa a “aprender” a sentir mais dor. Muitas vezes, a lesão já não é tão grave, ou até já foi tratada corretamente, mas o cérebro continua em estado de alerta, pronto para gerar dor diante de estímulos mínimos.
Isso gera consequências importantes: alterações de humor, distúrbios do sono, ansiedade, depressão e queda acentuada da qualidade de vida. Por isso, atualmente, há um grande esforço da ciência em interromper esse ciclo da dor crônica.
TRATAMENTO TRADICIONAL AINDA RESOLVE A MAIORIA DOS CASOS
Como ortopedista e médico do esporte, sempre priorizo o caminho mais simples, mais seguro e que gera menos custo ao paciente. Em muitos casos, infiltrações articulares com ácido hialurônico, hidrogel ou plasma rico em plaquetas, associadas a uma boa fisioterapia e, posteriormente, à prescrição correta de exercícios físicos, resolvem 80 a 90% dos casos.
O problema é que existe uma parcela de pacientes que já chega ao consultório com a dor completamente cronificada. Pessoas que passaram por vários médicos, usaram medicações sem evidência científica sólida, como glicosamina ou colágeno tipo II, e que continuam sentindo dor intensa, muitas vezes desproporcional ao grau da artrose observado nos exames. É nesse cenário que começa a surgir a discussão sobre o uso do canabidiol.
AFINAL, O QUE É O CANABIDIOL E ONDE ELE ENTRA NO TRATAMENTO?
O uso do canabidiol no Brasil é regulamentado desde 2014. Ele não é um anti-inflamatório clássico, mas pode atuar na modulação da dor, além de trazer benefícios secundários como melhora do sono, do humor e da adesão ao tratamento.
Em pacientes com dor crônica bem estabelecida, ele pode, sim, trazer melhora a médio e longo prazo. No entanto, isso não significa que seja uma medicação isenta de riscos.

OS RISCOS E EFEITOS COLATERAIS DO CANABIDIOL
Esse é um ponto que precisa ser discutido com muita seriedade antes de iniciar o uso. O canabidiol pode causar:
- Alterações hepáticas, inclusive quadros semelhantes a hepatite, principalmente em doses altas
- Sonolência excessiva ou sedação durante o dia
- Irritabilidade e alterações de humor
- Náuseas, dor abdominal e diarreia
- Interações medicamentosas importantes, como com anticoagulantes, anticonvulsivantes e estatinas
- Alterações cardiovasculares, como taquicardia e hipotensão postural
- Riscos adicionais em gestantes
Por isso, o uso do CBD nunca deve ser feito sem acompanhamento médico.
QUANDO O CANABIDIOL REALMENTE VALE A PENA?
Aqui entra o ponto mais importante: uso racional da medicação.
Não faz sentido iniciar canabidiol logo de cara em um paciente com artrose e dor mecânica compatível com os exames. Nesses casos, o foco deve ser tratar a doença na origem: fisioterapia, infiltrações, fortalecimento muscular e, quando indicado, cirurgia.
Usar o CBD sem tratar a causa é apenas maquiar o sintoma, enquanto a doença continua progredindo. Isso pode fazer o paciente perder tempo, dinheiro e chegar a tratamentos mais agressivos no futuro.
O canabidiol pode ser considerado principalmente em pacientes que:
- Já trataram corretamente a artrose
- Apresentam dor crônica bem estabelecida
- Têm alterações importantes de sono, humor ou ansiedade
- Não responderam adequadamente aos tratamentos tradicionais
Mesmo nesses casos, ele deve ser usado em doses baixas, com acompanhamento e com plano de retirada gradual da medicação. O objetivo não é que o paciente use CBD para o resto da vida.
Leia também: Como evitar a prótese em caso de artrose?
SISTEMA ENDOCANABINÓIDE: POR QUE O CBD REDUZ A DOR?
O nosso corpo possui o chamado sistema endocanabinoide, formado por receptores presentes no cérebro e no sistema nervoso. O canabidiol atua nesses receptores, modulando a percepção da dor. Diferente do THC, que causa efeito psicoativo, o CBD não gera o “barato”, mas reduz a sensibilidade à dor.

O CBD PODE AJUDAR, MAS NÃO SUBSTITUI O TRATAMENTO REAL
O canabidiol não é vilão, mas também não é solução milagrosa. Ele pode ajudar em casos bem selecionados, mas jamais deve substituir o tratamento correto da artrose, que inclui controle da doença, fortalecimento muscular, atividade física e acompanhamento médico adequado.Se você se interessou e quer saber mais sobre o assunto, assista ao vídeo “Artrose: Cannabis funciona?”: https://www.youtube.com/watch?v=0cl4snEr-3Q.






