Condicionamento ou lesão?

Condicionamento ou lesão?

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A quantidade de pessoas que ingressam nos esportes nos dias atuais tem aumentado de maneira crescente. O que se tem visto hoje é uma verdadeira “enxurrada” de pessoas correndo em parques, orlas de prais, jogando futebol, vôlei e, atualmente, nota-se o aumento vertiginoso de praticantes de esportes de endurance extrema como a ultramaratona, trail running, triathlon, corrida de aventura, etc.

Concomitante a isso, a quantidade de pessoas que tem procurado clinicas de medicina esportiva com o mais diverso tipo de lesões como tendinites crônicas, doenças cartilaginosas, musculares, canelites, fraturas de estresse, hérnias e protusões discais também tem aumentado. O numero que ocorrências médicas, incluindo emergências como arritmias, paradas cardíacas, desidratações graves e distúrbios hidroeletrolíticos tem sido cada vez mais frequentes no atendimento médicos em campos, quadras e durante as provas.

 

Mas, por que isso acontece?

Seria apenas pelo aumento do número de praticantes de esportes na população? A resposta é sim e não.

Sim, porque com o aumento crescente de praticantes de esportes, aumenta-se quantitativamente o número de ocorrências médicas e não, porque a maioria das lesões  são previsíveis e, portanto, evitáveis. Ou seja, a grande maioria dos esportistas, seduzidos pela paixão ao esporte ou “empurrados” pelos alertas veiculados pela mídia da necessidade de exercitar-se para ganho de saúde, pulam três estágios básicos e extremamente importantes da prática esportiva: o auto-conhecimento, a preparação física e a preparação técnica ao esporte.

 

1. O auto-conhecimento

Popularmente conhecido como check up, envolve a avaliação cardio-respiratória com exames laboratoriais a fim de se determinar o funcionamento dos mais diversos órgãos, hormônios e níveis de colesterol. Os testes cardiológicos, de suma importância, além de servirem para detectar uma possível doença cardíaca também servem como base na evolução do indivíduo no esporte, como por exemplo, na determinação do VO2 máximo.

O exame do aparelho locomotor envolve a avaliação dinâmica da pisada, também conhecida como baropodometria com a prescrição de palmilha se necessário, alinhamento dos membros e desvios posturais, discrepância do tamanho dos membros, conhecida no meio médico como dismetria.

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Foto 1: avaliação isocinética do joelho em auxilio da máquina.

 

De uns anos para cá, tem se dado muita importância para o equilíbrio muscular dos grupos musculares que executam o movimento (agonistas) e os que resistem (antagonistas). Para isso, utilizamos da chamada avaliação isocinética . O teste pode ser realizado em uma máquina, acoplada a um computador com alavanca própria ou em um dispositivo móvel que pode ser usado em máquinas convencionais de academia, como a cadeira extensora.

O teste serve para mensurar a força, potência e resistência muscular e seus eventuais desequilíbrios.

Pode ser utilizado para monitorar ou direcionar o progresso de treinos e reabilitação ou avaliar o atleta antes ou após um período de treinos. Em atletas profissionais, costuma ser usado na pre-temporada a fim de se corrigir qualquer desequilíbrio muscular que possa predispor um entorse ou uma distensão muscular, estatisticamente comprovados por estudos científicos.

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Foto 2: gráficos mostrando os picos de torque da cada grupo muscular.

 

Ultimamente, também, tem sido dada muita atenção aos músculos estabilizadores do quadril, pois sua fraqueza ou  atraso no disparo muscular durante o movimento afetaria a dinâmica de diversas articulações, principalmente do joelho. De maneira mais didática, isso significa que, em uma aterrissagem do vôlei, por exemplo, “comando” vindo do cérebro para que a musculatura se contraia de maneira adequada, chegaria “atrasado” em alguns músculos, principalmente nos glúteos médio e mínimo no quadril (músculos estabilizadores da pelve) e no vasto medial (músculo interno da coxa) fazendo com que o fêmur “rode para dentro” e deixe a patela mais lateralizada e em contato reduzido das superfícies articulares. A isso, chamamos de valgo dinâmico. Quanto menor a área de contato, maior a pressão e, consequentemente, maior a chance de lesão crônica de tecidos, em especial a cartilagem patelar. Nos últimos 5 anos, alguns autores provaram existir o valgo dinâmico através do exame chamado eletromiografia e da ressonância magnética dinâmica (em movimento) e postulam que o problema atinge principalmente mulheres e é, na verdade, funcional e não só anatômico, como se pensava ha 30 anos atrás.

Isso significa que a cada passo da corrida de rua, por exemplo, a mulher estaria sujeita ao valgo dinâmico? Sim. A fase inicial da corrida é chamada de absorção de impacto, no qual a energia cinética do contato do pé ao solo é absorvida através da contração muscular e da flexão do joelho. Havendo o valgo dinâmico, existiria um micro-trauma de repetição que, a médio e longo prazo desenvolveriam sintomas como a dor, desconforto e inchaço no joelho.

A figura  mostra a diferença de uma aterrissagem de uma mulher (à esquerda) e de um homem (à direita). Note que os joelhos da mulher caem “para dentro” (valgizado) e em rotação interna e que isso não acontece com o homem.

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Figura 1: Fotografia de um estudo neuromuscular simulando um aterrissagem. A foto da esquerda mostra uma mulher aterrisando e a da direita, um homem. Note a valgizaçao típica da aterrissagem feminina.

 

2. A preparação física

É o condicionamento físico para determinado esporte, realizado por um preparador físico experiente e, se possível, observado por um fisioterapeuta.

Para esportes que envolvem desaceleração repetitiva dos membros inferiores, como a corrida de rua, o trekking, e o tênis, por exemplo, o treinador focará no fortalecimento excêntrico do quadríceps, ou seja na capacidade do músculo anterior da coxa contrair contra a resistência a fim de se absorver energia cinética, poupando as articulações.

Para esportes como o futebol de campo, futsal, rugby, que envolvem mudanças bruscas de direção, o treinamento também envolve a melhoria da resposta neuro-muscular, chamada pliometria. Exercícios pliométricos ajudam a desenvolver ritmo, velocidade, força e até resistência muscular. A pliometria, usada corretamente para um propósito específico, pode ser um atributo valioso para seu atleta, bem como para o condicionamento geral e específico de todo seu programa esportivo.

 

3. Preparação técnica ao esporte

Realizada, imprescindivelmente sob a tutela de um preparador físico especializado em determinado esporte, trata-se do conhecimento técnico do esporte que se deseja praticar e envolvem as planilhas de treinamento, postura e progressão do indivíduo no esporte para ganho de resistência física ou para a competição.

Esta fase serve, basicamente, para que o treinador dose o desempenho do atleta no esporte a fim de se evitar sobrecargas de volume ou intensidade no treino. É muito comum que um corredor de rua que treina sem supervisão, por exemplo, corra 10 a 20 km em dias seguidos e ao final de determinado tempo, desenvolva lesões.

Enfim, a conscientização do esportista de que a equipe multidisciplinar deve avaliá-lo e acompanhá-lo durante o período de treinamento evita lesões e pode maximizar o rendimento, fazendo com que o esporte atinja seu objetivo básico: a promoção de saúde.

 

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Dr. Adriano Leonardi
dr@adrianoleonardi.com.br

Dr. Adriano Leonardi possui 20 anos de experiência em Ortopedia. É Médico Ortopedista Especialista em Joelho; Mestre em Ortopedia e Traumatologia; Médico e Fisiologista do Esporte; Membro da Diretoria da Sociedade Paulista de Medicina Desportiva; Colunista e Consultor dos Sites 'Eu Atleta' e 'Globo Esporte'. Agende sua Consulta: (11) 2507-9021 ou 2507-9024

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