Exercícios proibidos para quem tem artrose

Você já sentiu aquela dor no joelho durante ou depois de um treino? Para quem tem artrose, escolher a atividade física certa costuma gerar dúvida: ficar parado parece mais seguro, mas a dor aparece justamente quando se tenta voltar a se movimentar.

A resposta curta é: quem tem artrose no joelho deve se exercitar, mas não de qualquer jeito. Neste artigo, você vai entender quais exercícios (ou formas de executá-los) tendem a piorar a doença, por que isso acontece e o que fazer no lugar deles para proteger a articulação.

Pessoa realizando agachamento profundo, exercício que aumenta a pressão no joelho com artrose
Em quem tem artrose no joelho, o agachamento profundo aumenta muito a pressão dentro da articulação e pode desencadear dor e edema ósseo.

O que é artrose no joelho?

A artrose (ou osteoartrite) é uma doença de toda a articulação, cuja marca principal é o desgaste da cartilagem que reveste as extremidades dos ossos. Essa cartilagem é organizada em quatro camadas (zonas superficial, média, profunda e calcificada)9 e funciona como uma superfície lisa de deslizamento e distribuição de carga.

Com a progressão da doença, essas camadas vão sendo perdidas. O osso logo abaixo passa a receber mais carga, reage formando osteófitos (os chamados “bicos de papagaio”) e pode desenvolver edema ósseo. O resultado é dor, inchaço, rigidez, perda de força muscular e, em fases avançadas, deformidade do joelho.

Ilustração comparando joelho saudável e joelho com desgaste da cartilagem por artrose
Ilustração do desgaste da cartilagem do joelho, característico da artrose.
Camadas da cartilagem articular que são perdidas na progressão da artrose
As quatro camadas da cartilagem articular, perdidas progressivamente conforme a artrose avança.

Por que a atividade física é parte do tratamento

Durante muito tempo, acreditou-se que ficar parado “poupava” a cartilagem. Hoje sabemos que isso é um mito. O exercício terapêutico é recomendado como tratamento de primeira linha para a artrose de joelho pelas principais diretrizes internacionais, como as do American College of Rheumatology e da OARSI1,2.

Revisões sistemáticas mostram que o exercício reduz a dor e melhora a função3 e que, quando bem prescrito, não acelera o desgaste da cartilagem; há inclusive sinais de melhora na qualidade da cartilagem remanescente4. Já o sedentarismo leva à perda de massa muscular, ao ganho de peso e a uma articulação menos protegida, o que alimenta o ciclo de dor.

O ponto central, portanto, não é se a pessoa com artrose deve se exercitar, e sim como. Alguns tipos de movimento, cargas e intensidades sobrecarregam uma articulação que já perdeu parte da sua capacidade de absorver impacto.

4 tipos de exercício que quem tem artrose no joelho deve evitar

A lista abaixo vale principalmente para quem tem artrose sintomática ou em grau moderado a avançado. Em fases iniciais, algumas dessas atividades podem ser liberadas após avaliação individual.

1. Exercícios de alto impacto

Exemplos: aulas de jump, saltos repetidos, corrida em trilha ou montanha, vôlei, basquete e futebol.

Aula de jump, exercício de alto impacto contraindicado para artrose no joelho
Atividades de alto impacto, como o jump, devem ser evitadas por quem tem artrose no joelho.

Por que evitar: cada aterrissagem gera picos de carga várias vezes maiores que o peso do corpo. Em um joelho saudável, a cartilagem e o menisco absorvem e distribuem essa energia. Quando essas estruturas estão desgastadas, a carga é transmitida diretamente ao osso, o que pode causar dor intensa e edema ósseo, um achado de ressonância associado a mais dor e maior risco de progressão da artrose5.

Anatomia do menisco do joelho, estrutura que absorve impacto entre fêmur e tíbia
O menisco funciona como amortecedor entre o fêmur e a tíbia. Impactos repetidos podem lesioná-lo ou desgastá-lo, e ele perde a função de proteger a cartilagem.

Uma ressalva importante sobre a corrida: a corrida recreativa, em terreno plano e com volume moderado, não aumenta o risco de desenvolver artrose em quem tem joelhos saudáveis6. Para quem já tem artrose, a decisão de manter ou retomar a corrida depende do grau da doença, do alinhamento do joelho e da resposta à carga, e precisa ser individualizada.

2. Agachamento profundo

O problema: as forças de compressão entre fêmur, tíbia e patela aumentam conforme o joelho dobra mais7. No agachamento profundo, a carga se concentra justamente nas regiões posteriores da cartilagem e no corno posterior do menisco, áreas que frequentemente já estão comprometidas na artrose.

O efeito: mais dor, inchaço após o treino e risco de agravar lesões degenerativas do menisco. Repetido ao longo do tempo, esse excesso de pressão contribui para a sobrecarga do osso e para a formação de osteófitos.

O que fazer no lugar: isso não significa abandonar o agachamento. O agachamento parcial (com amplitude limitada e sem dor), o agachamento até um banco ou a cadeira extensora com amplitude controlada são formas seguras de fortalecer o quadríceps.

Radiografia de joelho com artrose mostrando osteófitos indicados por setas
As setas indicam osteófitos (“bicos de papagaio”), formados como reação do osso à sobrecarga na articulação.

3. Movimentos de rotação com o pé fixo

Exemplos: giros rápidos com o pé apoiado no chão, mudanças bruscas de direção, esportes de quadra e alguns movimentos de dança ou lutas.

Por que evitar: quando o pé fica preso ao chão e o corpo gira, o joelho sofre forças de torção e cisalhamento. Em uma articulação com menisco degenerado e cartilagem fina, esse tipo de estresse pode provocar novas rupturas do menisco e crises inflamatórias, com dor e derrame articular (o joelho “enche de água”), que dificultam ainda mais o movimento.

4. Carga excessiva ou progressão rápida demais

O problema: o fortalecimento muscular é um dos pilares do tratamento da artrose, mas a carga precisa respeitar a tolerância da articulação. Pesos acima do que o joelho suporta, ou aumentos bruscos de carga e volume, geram forças anormais na articulação. Mesmo com boa técnica de execução, o excesso pode desencadear crises de dor e inflamação.

O que fazer no lugar: progressão gradual, monitorando a resposta do joelho nas 24 horas seguintes ao treino (veja a “regra da dor” no FAQ abaixo).

Exercício de musculação para pernas com carga elevada, risco para joelho com artrose
O excesso de carga na musculação pode sobrecarregar estruturas do joelho. A progressão deve ser orientada por um profissional.

Quais exercícios são indicados para quem tem artrose no joelho?

As diretrizes recomendam combinar fortalecimento muscular, exercício aeróbico de baixo impacto e treino de equilíbrio e controle do movimento1,2. Na prática, costumam funcionar bem:

  • Musculação orientada, com foco em quadríceps, glúteos e posteriores de coxa, com amplitude e carga ajustadas.
  • Bicicleta ergométrica, com banco alto o suficiente para evitar flexão excessiva do joelho.
  • Caminhada, preferencialmente em terreno plano, com aumento gradual de tempo e distância.
  • Hidroginástica e natação, especialmente úteis em fases de dor mais intensa.
  • Exercícios de equilíbrio e controle neuromuscular, como os do programa GLA:D, que melhoram a estabilidade do joelho8.

Para se aprofundar, veja também os artigos sobre exercícios para quem tem artrose e os 10 princípios fundamentais dos exercícios para artrose no joelho.

Conclusão: o exercício certo é parte do tratamento

A prescrição de atividade física para quem tem artrose é mais complexa do que parece, e alguns pontos precisam ser considerados:

  • A atividade física bem prescrita reduz a dor e pode desacelerar a progressão da doença.
  • Quem tem dor intensa deve passar primeiro por uma fase de reabilitação antes de iniciar ou retomar treinos.
  • Controlar a dor é o que permite recuperar a força muscular. Analgésicos e anti-inflamatórios aliviam o sintoma, mas não tratam a causa.
  • O tipo de exercício, a carga e a amplitude dependem do grau da artrose, do alinhamento do joelho e das lesões associadas.

Por isso, o primeiro passo é um diagnóstico correto: entender em que estágio está a artrose, quais estruturas estão comprometidas e o que está causando a dor. A partir daí, médico, fisioterapeuta e profissional de educação física conseguem montar um programa seguro, que mantém você ativo e protege a sua articulação.

Se você tem artrose no joelho e sente dor ao treinar, ou não sabe quais exercícios são seguros para o seu caso, agende uma avaliação com o Dr. Adriano Leonardi, ortopedista especialista em joelho e medicina do esporte.

Vídeos sobre exercícios proibidos para quem tem artrose

Quer ver na prática? Assista aos vídeos do Dr. Adriano sobre o tema:

Exercícios proibidos para quem tem artrose (versão curta)
4 exercícios proibidos para quem tem artrose (vídeo completo)

Perguntas frequentes sobre exercícios e artrose no joelho

Quem tem artrose no joelho pode fazer agachamento?

Pode, desde que seja um agachamento parcial, com amplitude limitada, carga adequada e sem dor significativa. O que deve ser evitado é o agachamento profundo, que concentra muita pressão na cartilagem e no menisco. Agachar até um banco é uma boa forma de controlar a profundidade.

Quem tem artrose no joelho pode fazer caminhada?

Sim. A caminhada é um dos exercícios aeróbicos recomendados para artrose. Prefira terrenos planos, calçado confortável e aumente o tempo de forma gradual. Se a dor piorar no dia seguinte, reduza o volume e procure orientação.

Quem tem artrose pode fazer academia?

Sim, e na maioria dos casos deve. O fortalecimento muscular é um dos tratamentos com melhor evidência para a artrose de joelho. O ideal é que o treino seja adaptado ao grau da doença, evitando agachamentos profundos, saltos e cargas excessivas.

Qual o melhor exercício para quem tem artrose no joelho?

Não existe um único exercício ideal. Os melhores resultados vêm da combinação de fortalecimento de quadríceps e glúteos, atividade aeróbica de baixo impacto (bicicleta, caminhada, hidroginástica) e treino de equilíbrio. O mais importante é que o programa seja regular e ajustado ao seu caso.

É normal sentir dor durante o exercício?

Um desconforto leve pode ser aceitável. Uma referência usada em programas de reabilitação é a “regra da dor”: dor de até 2 a 5 numa escala de 0 a 10 durante o exercício é tolerável, desde que volte ao nível habitual em até 24 horas8. Dor forte, que aumenta ao longo do treino ou que faz o joelho inchar no dia seguinte, indica que a carga precisa ser ajustada.

O exercício pode recuperar a cartilagem desgastada?

O exercício não “reconstrói” a cartilagem perdida, mas os estudos mostram que ele não acelera o desgaste e pode melhorar a qualidade da cartilagem remanescente4. Além disso, músculos mais fortes absorvem parte da carga que chegaria à articulação, o que reduz a dor e melhora a função.

Quando devo procurar um ortopedista?

Procure avaliação se a dor no joelho dura mais de algumas semanas, se o joelho incha, trava ou falseia, se você depende de analgésicos ou anti-inflamatórios para se movimentar, ou se a dor está limitando suas atividades. O diagnóstico correto define qual tratamento faz sentido, e nem toda artrose precisa de cirurgia.

Referências bibliográficas

  1. Kolasinski SL, Neogi T, Hochberg MC, et al. 2019 American College of Rheumatology/Arthritis Foundation Guideline for the Management of Osteoarthritis of the Hand, Hip, and Knee. Arthritis Care Res (Hoboken). 2020;72(2):149-162. doi:10.1002/acr.24131
  2. Bannuru RR, Osani MC, Vaysbrot EE, et al. OARSI guidelines for the non-surgical management of knee, hip, and polyarticular osteoarthritis. Osteoarthritis Cartilage. 2019;27(11):1578-1589. doi:10.1016/j.joca.2019.06.011
  3. Fransen M, McConnell S, Harmer AR, et al. Exercise for osteoarthritis of the knee. Cochrane Database Syst Rev. 2015;1:CD004376. doi:10.1002/14651858.CD004376.pub3
  4. Bricca A, Juhl CB, Steultjens M, Wirth W, Roos EM. Impact of exercise on articular cartilage in people at risk of, or with established, knee osteoarthritis: a systematic review of randomised controlled trials. Br J Sports Med. 2019;53(15):940-947. doi:10.1136/bjsports-2017-098661
  5. Felson DT, McLaughlin S, Goggins J, et al. Bone marrow edema and its relation to progression of knee osteoarthritis. Ann Intern Med. 2003;139(5 Pt 1):330-336. doi:10.7326/0003-4819-139-5_part_1-200309020-00008
  6. Alentorn-Geli E, Samuelsson K, Musahl V, et al. The Association of Recreational and Competitive Running With Hip and Knee Osteoarthritis: A Systematic Review and Meta-analysis. J Orthop Sports Phys Ther. 2017;47(6):373-390. doi:10.2519/jospt.2017.7137
  7. Escamilla RF. Knee biomechanics of the dynamic squat exercise. Med Sci Sports Exerc. 2001;33(1):127-141. doi:10.1097/00005768-200101000-00020
  8. Skou ST, Roos EM. Good Life with osteoArthritis in Denmark (GLA:D™): evidence-based education and supervised neuromuscular exercise delivered by certified physiotherapists nationwide. BMC Musculoskelet Disord. 2017;18(1):72. doi:10.1186/s12891-017-1439-y
  9. Sophia Fox AJ, Bedi A, Rodeo SA. The basic science of articular cartilage: structure, composition, and function. Sports Health. 2009;1(6):461-468. doi:10.1177/1941738109350438

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