Crianças e Adolescentes podem Operar o Ligamento Cruzado Anterior?

Crianças e Adolescentes podem Operar o Ligamento Cruzado Anterior?

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É fato de que as crianças e adolescentes tem iniciado a pratica esportiva competitiva cada vez mais precocemente.

Os esportes coletivos, como basquete, vôlei ou futebol proporcionam troca de experiências e ajudam a criança a se relacionar melhor. Os esportes individuais, como tênis ou ginástica olímpica, exigem bom autoconhecimento, atenção individualizada e são bastante direcionados para um objetivo a alcançar. Ambos desenvolvem a coordenação motora e permitem trabalhar todos os músculos do corpo.

Nos Estados Unidos, aproximadamente 361 mil estudantes colegiais participam de atividades esportivas competitivas, envolvendo cerca de 1.200 instituições por ano. Empurrados pelos pais ou tentando imitar aquele ídolo famoso da Tv e redes sociais, muitas vezes, os atletas mirins estão imaturos do pronto de visto neuro-muscular ou não se preparam corretamente para o esporte e, assim como nos adultos, sofrem lesões. Dentre elas, a ruptura do ligamento cruzado anterior.

O tratamento das lesões do ligamento cruzado anterior (LCA) em crianças e adolescentes tem sido alvo de um grande número de pesquisas nas ultimas 2 décadas.

 

Tipos de Lesões

Quando um atleta mirim torce o joelho, 2 tipos de lesões podem ocorrer:

  1. Arrancamento de uma espícula óssea da tíbia, onde se insere o ligamento cruzado anterior, denominada espinha tibial. Em 80% dos casos, ocorre em crianças menores de 12 anos. Quando o arranchamento é completo, trata-se de uma lesão grave, de tratamento cirúrgico emergencial. Nos casos onde o arranchamento é parcial, pode-se tratar com imobilização por 4 a 6 semanas, dependendo do grau de instabilidade gerada.
  2. Ruptura completa ou parcial do LCA. Em 90% dos casos, ocorre em adolescentes com mais de 12 anos. Do ponto de vista do gênero, como as meninas se aproximam da maturidade esquelética mais rápido que os meninos, possuem maior risco de ruptura do LCA (duas a oito vezes a mais). No entanto, em crianças mais novas, a incidência é discretamente maior em meninos.

Assim como nos adultos, havendo lesão ao ligamento cruzado anterior (ruptura) ou parcial (alongamento), não ocorrerá cicatrização espontânea, levando a instabilidade com alterações do equilíbrio neuro-motor (proprioceptivas).

Crianças podem operar ligamento cruzado anterior

Historicamente, a lesão do LCA em atletas mirins é motivo de debates calorosos entre cirurgiões de joelho.

 

Tratamento da Lesão do Ligamento Cruzado Anterior em crianças e adolescentes

Por um lado, sabe-se que o tratamento não cirúrgico traz resultados ruins em adolescentes assim como nos adultos. Existem evidências de que lesões meniscais e degeneração da cartilagem podem aparecer. O uso da joelheira articulada não impede as lesões meniscais ou a instabilidade.

Por outro lado, existe o temor de que este tipo de cirurgia apresentaria um risco de lesão da placa de crescimento, levando a uma deformidade angular (perna torta) ou a uma discrepância de comprimento nos membros inferiores. As placas de crescimento, chamadas de FISE entre nós ortopedistas são a parte responsável dos ossos das crianças  pelo crescimento em comprimento. Estas placas estão localizadas nas extremidades dos ossos longos e, particularmente nos membros inferiores, boa parte do crescimento se deve as placas do fêmur e da tíbia.

Como já expliquei em outros artigos, tradicionalmente, em adultos, quando realizamos a cirurgia para reconstrução do LCA, confeccionamos túneis ósseos na tíbia e no fêmur para colocarmos  um enxerto que substituirá o LCA. Na criança, estes túneis, por cruzarem a placas de crescimento, poderiam, em tese, danificá-las e então levar a problemas de crescimento.

Dois fatores tem levado a comunidade mundial de cirurgia de joelho a recomendar a reconstrução do LCA mais cedo, mesmo em crianças:

  1. Como já dito, pesquisas mostram que um joelho instável está sujeito a novos entorses e consequentemente sujeito a grande chance de lesão dos meniscos e da cartilagem. E estas lesões num paciente jovem são muito problemáticas e tem uma evolução ruim, levando a um desgaste precoce do joelho. O risco de termos um joelho com muitas lesões é maior do que o termos um problema na placa de crescimento quando operamos estes pacientes.
  2. Diferentes técnicas cirúrgicas têm sido descritas e modificadas em pacientes com FISE ainda em desenvolvimento, com bons resultados e pouca alteração de crescimento. Ou seja, existem modificações da cirurgia do LCA tradicional que permitem que a placa de crescimento seja minimamente afetada em crianças.

Enfim, a reconstrução do LCA em pacientes esqueleticamente imaturos, com atenção cuidadosa à técnica, tem resultado em bons resultados clínicos e sem anormalidades de crescimento e são promissoras em seu retorno ao esporte.

 

Referências Bibliográficas

  1. Adirim TA, Cheng TL. Overview of injuries in the Young athlete. Sports Med 2003 33:75-81.
  2. Simon TD, Bublitz MS, Hambidge SJ. External causes of pediatric injury-related emergency department visits in the United States. Acad Emerg Med 2004 11:1042-1048.
  3. Lo IK. Bell DM. Fowle PJ. Anterior cruciate ligament injuries in the skeletally immature patient. Instr Course Lect 1998 47: 351-9.
  4. Mohtadi N, Grant J. Managing anterior cruciate ligament deficiency in the skeletally immature individual: a systematic review of the literature. Clin J Sport Med 2006 16(6):457-64.
  5. Guzzanti V, Falciglia F, Stanitski CL. Physeal-sparing intraarticular anterior cruciate ligament reconstruction in preadolescents. Am J Sports Med 2003 31(6):949-53.
  6. Guzzanti V, Falciglia F, Stanitski CL. Preoperative evaluation and anterior cruciate ligament reconstruction technique for skeletally immature in Tanner stages 2 and 3. Am J Sports Med 200331(6):941-8.
  7. Kocher MS, Garg S, Micheli LJ. Physcal sparing reconstruction of the anterior cruciate ligament in skeletally immature prepubescent children and adolescents. J Bone Joint Surg Am 2005 87(11)2371-9.
  8. Kocher MS, Smith JT, Zoric BJ, Lee B, Micheli LJ. Transphyseal anterior cruciate ligament reconstruction in skeletally immature pubescent adolescents. J Bone Joint Surg Am 2007 89(12)2632-9.
  9. Lo IK. Bell DM. Fowle PJ, Miiiiiniaci A. The outcome of operatively treated anterior cruciate ligament disruptions in the sketetally immature child. Arthroscopy 1997 13(5):627-34.
  10. McIntosh AL, Dahm DL, Stuart MJ. Anterior cruciate ligament reconstruction in the skeletally immature patient. Arthroscopy 2006 22(12):1325-30.

 

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Dr. Adriano Leonardi
dr@adrianoleonardi.com.br

Dr. Adriano Leonardi possui 20 anos de experiência em Ortopedia. É Médico Ortopedista Especialista em Joelho; Mestre em Ortopedia e Traumatologia; Médico e Fisiologista do Esporte; Membro da Diretoria da Sociedade Paulista de Medicina Desportiva; Colunista e Consultor dos Sites 'Eu Atleta' e 'Globo Esporte'. Agende sua Consulta: (11) 2507-9021 ou 2507-9024

4 Comentários
  • Lidiane maques
    Postado as 14:27h, 21 maio Responder

    Meu filho tem 7 anos e teve ui mais LCA brincando no pula pula, mas depois que o ortopedista disse que se ele operar agora pode afetar o crescimento fiquei com muito medo o que faço Dr?

    • Dr. Adriano Leonardi
      Postado as 12:35h, 22 maio Responder

      Entendo a ansiedade que a lesão de seu filho pode estar te causando, mas fica difícil eu emitir uma opinião sem ver os exames e te examina-lo minuciosamente.
      A chave do sucesso do tratamento começa por um diagnóstico acurado.
      Com um bom acompanhamento, da lesão do ligamento cruzado anterior permite sim que o atleta mantenha a pratica esportiva.
      Dependendo do grau de instabilidade, pode ser que eu consiga mante-lo praticando esporte sem cirurgia.
      Agora, se estiver muito instável, existem técnicas para que nao haja lesão da cartilagem e crescimento e que o LCA possa ser reconstruído.

  • Karina
    Postado as 01:24h, 25 novembro Responder

    Meu sobrinho teve ruptura completa de lca e ele só tem 11 anos porém e atleta amador
    Mas ele anda e de vez em qdo até joga pelada na rua … mas na ressonância deu esse resultado aí que mencionei .. E possível msm ser ruptura completa e caso cirúrgico como disse um médico e outro já diz que não
    Estou muito aflita

    • Dr. Adriano Leonardi
      Postado as 09:21h, 28 novembro Responder

      oi, Karina.
      O mais importante ai é o exame fisico e as queixas do adolescente.
      se ele tiver com instabilidade, precisa operar.

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